segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Antiquário

O homem parou por alguns minutos na frente da loja, repensando se deveria seguir o conselho do amigo. Que mal faria?, ele pensava. Um amigo conseguiu fama e dinheiro e atribuía tudo à loja em questão. Mesmo assim, se recusava a dizer quais artigos eram vendidos. “Você precisa ir até lá para crer”, disse. O homem estufou o peito, criou coragem e entrou.
A loja era realmente bonita. Alguns lustres de cristal, canapés franceses, uma penteadeira e um divã. Mais parecia um quarto mal decorado do que uma loja, mas mesmo assim tinha certo charme. Um senhor de longas barbas brancas o recebeu e o indicou o caminho até uma escrivaninha. Todo o lugar era coberto por papel de parede, das mais diversas cores e estampas.

- Em que posso ser útil?, interrogou o lojista.
- Na verdade, eu não sei.
- Não seja tímido – disse o velho enquanto limpava os óculos em um antigo lenço com monograma. – Pode me dizer o que veio procurar.
- Não sei ao certo. Vim por indicação de um amigo. Ele disse que conseguiu sucesso e fortuna no seu estabelecimento.
- Sim, me lembro. Mas isso não é garantido. É o que você quer? Dinheiro? Sucesso?
- O que mais eu posso querer?
- Não sei. São inúmeras as possibilidades... Por que não me diz o que você já tem?
- O que eu já tenho?
- Sim. Me conte o seu passado.
- Não lhe entendo – retrucou o homem.
- Seu passado. Afinal, somos uma loja de passado.
- Me perdoe, senhor, mas cada vez entendo menos.
- Compreendo, compreendo. Na certa seu amigo não lhe disse qual era a nossa matéria-prima. Somos vendedores de passado. Fique a vontade, dê uma volta pela loja. Creio que vai acabar encontrando algo que goste.

“Um antiquário?”, indagou-se o homem. “Como meu amigo conseguiria fama e riqueza em um antiquário?”
Deu uma volta pelo estabelecimento, ainda que contrariado. Olhou alguns bibelôs e porta-retratos, mas o que mais lhe impressionou foi o vasto acervo de fotos.

- Vejo que encontrou nosso tesouro – comentou o velho, mais empolgado do que deveria estar. – Vê algo que lhe interessa?
- Como assim? Não consigo entender onde quer chegar...
- Esta aqui, por exemplo – divagou o vendedor. Em suas mãos, o retrato de uma mulher muito bonita sentada em uma cadeira de praia. – Posso dizer que te serve, é o seu número. Não me entenda mal, não estou sugerindo que seja a mulher, mas ela poderia ser sua irmã. Ou melhor, uma ex-namorada.
- Onde quer chegar, senhor.
- Leve a foto. Ela pode lhe servir.
- Mas é uma mulher que eu nem conheço.
- Temos outros exemplares. Fotos de grupo; podem ser seus amigos. Um cavalo; um exótico animal de estimação. Uma casa; quem sabe não foi onde passou a infância?
- Vocês vendem fotos para eu dizer que são minhas?
- Nada disso... Nosso comércio apenas começa com as fotos. Esta aqui, se me permite, é valiosíssima – disse o vendedor com uma foto de um casal com um menino na Itália. – Além da foto, podemos conseguir as passagens de avião da época, reservas em hotel... Com uma gorjeta gorda, até consigo um globo de neve com o Coliseu.
- Uma viagem falsa da minha infância?
- Não. Será muito verdadeira. Note, uma vez, vendi um casamento com uma chinesa para um senhor que mora nas redondezas. A história era tão boa que um dia ele me encontrou na rua e me contou sobre a lua de mel. Acho que até ele já acreditava no falso casamento.
- Não quero uma viagem de mentira!
- Se levar a moça na cadeira de praia, lhe dou de brinde uma carta apaixonada de despedida. E com a casa antiga, lhe apresento a um rapaz que confirmaria que vocês foram vizinhos.
- Desculpe, senhor. Acho que foi um engano ter vindo aqui.

O homem deu as costas ao vendedor e partiu para fora da loja. Já fazia sinal para um táxi quando, sem querer, olhou a vitrine. Lá, uma foto desbotada lhe chamou a atenção. Voltou correndo para o estabelecimento e indagou ao velho:
- E quanto àquela da vitrine?
- O bebê?
- É... Eu sou divorciado e nunca tive um filho... Talvez fosse uma boa idéia.
- Claro. Não está entre os itens mais vendidos, mas quem comprou uma sempre volta para olhar as novidades. Um dos nossos clientes foi tão bem sucedido que até conseguiu o próprio filho. E já passava dos sessenta, o pobre diabo. Sabe o que ele fez? Me deu uma fotografia do menino dele. Mas este não é o caso. Se quiser a foto, tenho um pacote completo. Chupeta, certidão de nascimento, teste do pezinho, tudo. E como fui com a sua cara, te vendo um álbum com vinte retratos por um preço especial. No final, tem dois telefones. Se ligar para eles, um casal confirmará que foram os padrinhos da criança.
- Mas o que aconteceu com o menino? O que ele faz hoje, quantos anos tem?
- Isso depende do senhor. Nós vendemos passado, não presente e futuro.
- Está bem, eu penso em algo. Quanto é?
- Depende... Qual a forma de pagamento?
- Cartão de crédito.
- Lamento, senhor. Só aceitamos cruzeiro, cruzado e contos de réis.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Biografia


Faltava o final, lhe disse seu editor. O escritor decidira redigir sua biografia por acreditar que já estava muito perto da morte. Beirando os oitenta anos, muito do que se passara com ele, já não tinha mais testemunhas, a não ser o próprio escritor. Foi para sua casa de praia e durante dois meses contou toda a sua vida: a infância difícil, as brigas com os pais, a fuga de casa, o aprendizado com velhos professores, namoros, o casamento, consagração na carreira, abandono dos filhos, velhice. Era um calhamaço de mais de setecentas páginas, mas que não tinha fim, de acordo com o editor.

“Não me leve a mal, meu caro, mas da metade em diante o livro é totalmente morto. O último clímax é o seu casamento, e isso aconteceu na página quatrocentos e quatorze. Nem a morte de sua esposa foi um evento memorável. Não é possível que você não teve nenhum caso, uma experiência religiosa que mudou sua vida ou foi roubado pelo antigo empresário”, reclamou o editor. A verdade é que, muito caseiro, a vida do escritor nos últimos anos se resumia a ler, comer e dormir.

Determinado a dar um desfecho glorioso à sua obra então recusada, o escritor estava disposto a dar cabo da própria vida. Foi à farmácia, comprou alguns comprimidos de tarja preta com receita falsificada e sentou à máquina de escrever. Lá, descreveu como tomou cada uma das pílulas, como rolou pelo chão em agonia, como viu sua vida passar diante dos olhos e como só foi encontrado quase uma semana depois pela arrumadeira. Ao colocar o ponto final no texto, tomou seus comprimidos e apagou. Acordou algumas horas mais tarde no hospital com uma úlcera.

Ao retornar para casa, tentou bolar um meio mais eficiente de morrer, afinal não poderia correr o risco de piorar sua condição gástrica no caso de novo fracasso. Tentou enforcar-se, mas a corda rompeu. Pensou em um acidente de carro, mas não sabia dirigir. Cogitou um tiro na cabeça, mas tinha horror a armas de fogo. Tentou cortar os pulsos, mas desmaiou ao ver a primeira gota de sangue. Contratou um assassino de aluguel, mas este acabou preso antes de executar o serviço. Ao final de cada tentativa, as páginas recém escritas com o final apoteótico e a vida lhe passando diante dos olhos antes da derradeira escuridão eram devidamente descartadas.

Sem solução para o fim do livro, desistiu. Naquela mesma noite, deitou-se para dormir e acordou apenas para dar seu último suspiro, por volta das cinco da manhã. O corpo foi encontrado pela arrumadeira. O livro, sem conclusão, jamais foi publicado. E o pior: o escritor jamais viu sua vida passar diante de seus olhos.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Bom dia


- Consultório da Doutora Carolina.
- Bom dia.
- Bom dia, Paco.

Zefa olhou no relógio. Nove horas, como de costume. Todos os dias, verão ou inverno, chovendo ou fazendo sol, ela recebia a mesma ligação. Há três anos. Um homem chamado Paco ligava, dizia “bom dia”, aguardava a resposta e desligava. Nas primeiras vezes, ela chegou a achar estranho.

- Consultório da Doutora Carolina.
- Bom dia – disse uma voz trêmula e um pouco rouca.
- Bom dia. Em que posso ajudar...?

O telefone já havia sido desligado. Zefa chegou a comentar com algumas pacientes a estranheza daquela ligação. O homem não se identificou, não disse o que queria, não pediu informação. Certamente, não seria engano. Ele não pediu desculpa, não disse que ligou para o número errado. Disse apenas “bom dia”.

No dia seguinte, nove em ponto, o telefone tocou novamente e, novamente, repetiu-se a cena. Lá pelo quinto dia, Zefa já supunha ser o estranho visitante.

- Consultório da Doutora Carolina.
- Bom dia.
- Antes de lhe responder, gostaria de saber o seu nome. Já que vamos nos cumprimentar toda manhã, quero saber para quem respondo.

O homem nada disse. Pelo telefone, Zefa ouvia apenas a respiração, um pouco impaciente. Sem saber ao certo o que fazer, ela apenas disse:
- Bom dia.
E o telefone foi desligado. Qual não foi sua surpresa, quando, na segunda-feira, seu interlocutor se apresentou.
- Consultoria da Doutora Carolina.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Meu nome é Paco.
- Prazer, Paco. Eu sou a Zefa.

Assim começou esta estranha relação. Nunca conversaram, não sabiam nada um do outro. A outra única vez em que trocaram mais do que a saudação matutina foi quando Zefa lhe deu seu telefone de casa.
- Paco, não desligue. Vou te passar o meu número pessoal. É que eu só trabalho aqui de segunda a sexta-feira. Você pode querer me ligar no final de semana também.
Dito e feito. No sábado seguinte, Paco ligou para a casa da recepcionista aguardando seu tradicional “bom dia”.

Para paco, a história começou muito tempo antes. Na verdade, assim que ele nasceu. Sua mãe lhe acordava todos os dias com um beijo na testa e um “bom dia” sincero, que lhe alegrava muito além da simples manhã. Nunca precisou de um “boa tarde” ou “boa noite”. O “bom dia” já era completo.

Quando fez vinte e cinco anos, sua mãe faleceu. Foi difícil para Paco, mas ele se adaptou a aprendeu a viver sem a progenitora. Afinal, já estava casado e tinha a esposa para, às nove da manhã, lhe desejar um “bom dia”. Foram bons os anos de matrimônio, mas a mão do destino lhe levou a mulher, largando-o sozinho, sem filhos, sem amigos, sem “bom dia”. Foi nessa época que as ligações começaram. Paco escolheu um número aleatoriamente:
- Alô?
- Bom dia.
- Quer falar com quem?

E ele desligava. Por dias e dias insistiu. Semanas e meses se passaram sem que ele conseguisse de alguém a saudação que tanto aguardava. Havia sempre um “quer falar com quem”, “o que deseja”, “pois não”, outro “alô”. Isso quando não ganhava um palavrão ou batiam o telefone no gancho. Foi escolhendo os números a esmo até que ouviu, do outro lado:
- É o cara do “bom dia” de novo? Por que é que volta e meia você insiste em ligar para mim?

Neste dia, paco decidiu fazer uma lista dos telefones que ligava. Por mais que tentasse, seu esforço era em vão. Pareciam todos hostis ao seu cumprimento. Todos ressabiados, com medo de uma brincadeira, de um trote. Suas manhãs foram tormentos até que ouviu as palavras mágicas:
- Consultório da Doutora Carolina.

Paco já estava sem esperanças. Talvez o mundo fosse um lugar inóspito para um adicto em “bom dia” como ele. Decidiu: se esta moça não responder, eu não insisto mais.
- Bom dia.
O coração gelou por um segundo. Apesar de ter decidido que poria fim aos telefonemas, ainda não sabia qual seria seu destino. Apenas deixaria de ligar ou encerraria todas as suas atividades?
- Bom dia. Em que posso ajudar...?

Em nada.
Já havia ajudado o bastante.
Alívio.
Paco voltou a ligar no dia seguinte e no outro e no outro. Pela primeira vez, continuava a receber respostas. Pela primeira vez, tinha bons dias. Ele chegou a ficar nervoso quando a recepcionista perguntou seu nome. Era uma sexta-feira. Paco passou o final de semana nervoso. Deveria responder? Ele achava melhor não. Não queria ir além daquilo. E se ela deixar de falar? Então, era melhor dizer o nome. Após as devidas apresentações, Paco sentiu que voltava a ter um relacionamento, ainda que virtual.

Para Zefa, as ligações de Paco já faziam parte de seu cotidiano. Tanto que, numa terça-feira, quando a paciente das nove e meia chegou para a consulta e o telefona ainda não havia tocado, ela se preocupou. Na certa, Paco teria dormido até mais tarde. Que nada. Ela esperou a ligação o dia todo. No dia seguinte, a mesma coisa.
No terceiro dia, Zefa arregaçou as mangas e foi à luta. Precisava, a qualquer custo, descobrir o que estava se passando com Paco. Estava doente? Estava viajando? Havia morrido? Havia se matado? Ela arrependeu-se de não ter perguntado o sobrenome dele, ou onde ele morava, ou qual era seu telefone. Tudo que ela sabia era que ele ligava às nove, sem falta, sem atraso.

A recepcionista sacou seu caderninho de telefones e ligou para uma cliente da Doutora Carolina que trabalhava na companhia telefônica. Queria a qualquer custo saber o paradeiro de Paco. A moça titubeou, disse que era ilegal, antiético, que poderiam demiti-la se descobrissem, mas acabou cedendo. Deu o nome completo de Paco, o endereço de seu apartamento, o número de seu telefone. Zefa começou tentando ligar para ele, mas não conseguiu resposta. Após o expediente, foi à casa dele, mas ninguém atendeu à campainha. Com seu nome, visitou hospitais e o instituto médico legal. Ninguém soube dizer o que aconteceu. Zefa se preocupou, como se ele fosse um amigo verdadeiro ou um membro da família. Chegou a perder duas noites em claro, só pensando nas possibilidades. Nunca chegou à uma conclusão.

Muito tempo passou, cerca de um ano, e Zefa acabou enterrando em sua memória as chamadas de Paco. Evitava pensar no amigo invisível, mas quando o relógio avisava que chegaram as nove horas, seu coração batia apertado. Num desses dias, ela estava sentada em sua mesa, na recepção do consultório. O telefone tocou, na exata hora cheia e ela atendeu cheia de esperanças.

- Alô? Consultoria da Doutora Carolina. Zefa falando.
Uma voz de mulher respondeu:
- Desculpa, querida. Foi engano.

Ela baixou a cabeça e fechou os olhos. Quase um ano depois, deixou-se contagiar por um telefonema, que poderia ser de qualquer um. Enquanto lamentava, a maçaneta da porta girou, deixando entrar um senhor de uns sessenta anos. Com sua bengala em punho, ele se aproximou vagarosamente.

- Pois não, senhor? Em que posso ajuda-lo?
- Bom dia.
Zefa reconheceu imediatamente a voz rouca a trêmula.
- Paco?
- Sou eu, Zefa.
- Nossa... Já faz um ano. O que aconteceu com você?
- Muita coisa, Zefa.
- Nossa... Eu estou tão nervosa. Cheguei a pensar que você tinha morrido.
- Eu estou bem, Zefa.
- Você precisa me contar o que aconteceu. Tudo. Tudo!
- Só se você me permitir lhe pagar uma xícara de café.
- Claro, Paco. Eu saiu às quatro da tarde.
- Eu passo para lhe buscar.

Paco se afastou, caminhando para a porta. Zefa sentiu um grande alívio tomar conta de seu corpo. E uma ansiedade louca de que as quatro horas chegasse. Ao se dar conta de um detalhe, ela levantou correndo e foi até o corredor do edifício. Paco já estava entrando no elevador.

- Paco, Paco – ela gritou.
- O que foi, Zefa?
- Eu já ia me esquecendo... Bom dia!
- Bom dia, Zefa. E obrigado.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Zé Maria

Não era sempre que seu José Maria se apresentava com tanta empolgação. Aliás, nem sequer gostava de seu nome. Penou no colégio com tantas brincadeiras envolvendo seu nome do meio. Os meninos debochavam, dizendo “lá vem Maria” toda vez que ele cruzava o corredor. Talvez por isso, ou pela falta de capacidade intelectual, abandonou o colégio sem ter completado a sexta série do ensino fundamental. Depois do colégio, fez bico como entregador de pães para ajudar a mãe a sustentar a casa. Zé Maria tinha sete irmãos, sem falar de uma prima que morava com ele e do avô inválido, incapacitado de qualquer tarefa. Foi aos dezessete que decidiu ser porteiro. “Por vocação e opção”, dizia ele, sem saber ao certo o que era vocação e colocando um “i” entre o “p” e o “ç” de “opção”. Repetia a frase que ouvira de um padre durante um sermão. Padre Saulo. Rezava a maioria das missas na paróquia em que Zé Maria freqüentava com a mãe, o batalhão de irmãos, a prima e o avô inválido. Padre Saulo se envolveu com a esposa de um dos messes durante um retiro em Vargem Grande. Um escândalo. Na época, Zé não entendeu, mas pelo pouco que lembra, tenta refazer a história. Hoje em dia, Padre Saulo é pastor de igreja evangélica. Mudou seu nome para Paulo, simbolizando sua transformação. Vive com a esposa do messe, que não é mais esposa do messe, mas corre à boca pequena que ele sai com outras esposas de outros messes. Pastor Paulo. Ainda outro dia Zé cruzou com ele na rua, mas a longa barba não deixou que o Pastor fosse reconhecido. Isso não vem ao caso.

O caso é que numa bela tarde chuvosa de um mês qualquer do último ano do século vinte (sim, uma bela tarde), uma jovem entrou na portaria de Zé Maria. A portaria não era dele. Era do prédio. Prédio este em que ele só trabalhava duas vezes por semana. Nas terças à tarde e nas quintas de madrugada, quando apenas dormia, com os braços apoiados sobre a escrivaninha. Mesmo assim, Zé dizia “minha portaria” e enchia a boca, como se aquela portaria ocupada por ele doze horas por semana fosse tudo o que ele tivesse. Era quase isso. Além da portaria deste prédio e de mais dois, somando no total cinqüenta e quatro horas semanais de trabalho mal remunerado e sem carteira assinada, Zé possuía um Fiat 147, enguiçado e enferrujado, modelo “mil novecentos e guaraná de rolha”, como dizia para os amigos, sem entender bem o que a rolha tinha a ver com o guaraná, e um quartinho no fundo do barraco da prima, onde também morava o avô inválido, que para a surpresa de todos, ainda estava vivo, beirando o centenário. Sendo assim, era cabível que Zé Maria tomasse aquela portaria emprestada para ele duas vezes por semana, nas tardes de terça e nas madrugadas de quinta.

Retomando a narrativa: a jovem sorria para ele e perguntava por um morador que ele não conhecia, sendo assim, não sabia se estava ou não em casa. A jovem era realmente bonita. Zé não se lembrava de ter falado com muita gente bonita. Conheceu algumas de vista, mas não falou com nenhuma, exceto pelo seu trabalho nas portarias. Ele se lembrava de uma menina, ainda em seu colégio. Pensou em pedi-la em namoro, mas ela era mais uma a engrossar o coro que debochava de seu nome meio masculino, meio feminino. Lembrava, também, da mulher do messe, que agora era mulher do Pastor, se é que ainda era. A mulher do messe era bonita e não era de se admirar que o Padre Saulo caísse de amores por ela. Ou era, tendo em vista que ele dizia nos sermões dominicais que era padre por vocação e por opção. Zé achava a prima bonita, embora evitasse pensar nisso e pedia a Deus para afastar qualquer pensamento libidinoso de sua mente, principalmente algum que sua mãe, agora finada, desaprovasse. A mãe, como já dito, finada, também tinha sua beleza, mas Zé acreditava que ela era bonita apenas por ser sua mãe. Mãe é sempre bonita. Aliás, a mãe de seu vizinho Ronaldo, dona Esperança, também era bonita. Fora estas, as moradoras dos prédios também eram bonitas, mas tinham uma beleza de Zona Sul, onde todas as meninas são bonitas, mas todas as meninas são iguais.

A bela jovem, ainda sorrindo, pois antes ela estava sorrindo, o que a deixava mais bela, insistiu. O nome dele é Luís Maurício, e repetia e dizia “o senhor deve conhecê-lo, tem um carro vermelho e um corte de cabelo moderno”. Mas Zé não prestava atenção nas palavras. Apenas no movimento dos lábios. Admirava a poesia daquele movimento, embora não achasse poesia alguma naquilo ou tivesse lido algum poema na vida. Sabia os primeiros versos do hino do Botafogo e sabia que batatinha quando nasce esparrama pelo chão, mas nunca visualizou a cena da batatinha nascendo e se esparramando pelo chão. Mas isso não importava. O que importava era a jovem tentando manter o sorriso, a simpatia e a educação. Pela cabeça de Zé, não passava moço com carro moderno ou cabelo vermelho. E ela repetia “talvez você não o conheça pelo nome” e Zé só ouvia “o nome” e estufou o peito e pensou nas mulheres bonitas e nos sermões de Padre Saulo e nos meninos do colégio e disse “José Maria”.

Era uma bela tarde chuvosa de um mês qualquer do último ano do século vinte. A jovem sorria e Zé nem mais se lembrava do resto todo e poderia repetir pelo resto da tarde ou até a bela jovem ir embora: “José Maria. Meu nome é José Maria”.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Ainda um menino


Ainda ontem achei debaixo da cama algo que tinha perdido há muito tempo. Já nem me lembrava direito que era meu; poderia ser de qualquer um. Estava empoeirado, meio amassado e até cheirava mal. Era o meu medo de escuro. Decidi usá-lo outra vez, afinal no passado ele teve certa utilidade. Me lembro que minha mãe ficava do meu lado, sentada na beirada da cama, cantando e lendo enquanto eu não adormecia.

Quando minha mulher viu, pôs-se a rir. “O que um homem deste tamanho vai fazer com medo de escuro? Você vai ser a piada da repartição.” A verdade é que quando a noite veio e eu precisei de um abraço apertado para me acalmar e dormir, ela não achou tão ruim assim.

No dia seguinte, vasculhei armários, gavetas velhas, malas de viagem, qualquer canto em busca de um fragmento perdido de minha inocência. Entre algumas roupas antigas, achei a capacidade de fantasiar que havia perdido na adolescência. Meus filhos riram de mim, com o lençol amarrado no pescoço e a cueca por cima da calça, gritando que era um super-herói e podia voar. Mas logo, lá estavam eles, rolando na grama do jardim comigo, num duelo mortal entre piratas e alienígenas.

Numa prateleira da sala, achei minha curiosidade. Estava achatada, apertada dentro de um livro antigo, mas ainda dava para usar. Vesti e fui correndo para a casa da minha mãe. Perguntei como ela tem passado, o que tem feito de bom, como andam suas amigas, a quantas anda sua saúde. Mesmo surpresa, ela não perdeu tempo; passou toda uma tarde me contando cada detalhe de seus dias mais recentes.

Foi então que eu me lembrei de uma caixa. Uma velha caixa que eu guardava no alto do armário. Ela estava vazia há muitos anos. Foi dentro dela, ainda um menino, que encontrei a maturidade. Foi dentro dela que consegui a coragem para procurar emprego, que achei a responsabilidade para me casar, de onde tirei a força para criar dois filhos. Olhando para a caixa, tirei meu medo de escuro, minha capacidade de fantasiar, minha curiosidade infantil. Tampei e guardei de volta em cima do armário. Minha família nunca notou a diferença e nunca vai notar. Se algum dia eu precisar, minhas relíquias estarão me esperando muito bem guardadas, mas por enquanto eu tenho tudo o que preciso.

domingo, 20 de julho de 2008

A vida é uma campanha publicitária de cerveja


Sentado no bar, com os amigos de sempre, Adalberto pensava. De um segundo para o outro, tinha perdido completamente a atenção na conversa. Mergulhava novamente em seu pensamento mais freqüente: uma frase de impacto. Desde sempre ele ouvia as frases que seus amigos diziam e era incapaz de dizer umazinha sequer. Deu-se conta, pela primeira vez, em um jantar em sua casa. A ocasião era o seu aniversário. Estavam lá os mesmos de sempre: Marcos, que era seu amigo desde a infância, Gomes, reclamando feito um velho, e o gordo que sempre usava camisas listradas na vertical – uma tentativa desesperada de parecer mais magro.

Adalberto passara toda a tarde preparando a comida e a sobremesa. Aos amigos, coube unicamente trazer a bebida. Isso eles bem sabiam fazer. No caminho, passaram em um supermercado e encheram o carrinho de latas de cerveja, umas garrafas de cachaça e um galão de vinho, que era para acompanhar a comida. Era bebida suficiente para um churrasco de trinta pessoas, mas pouco para os três amigos de Adalberto.

Se seus amigos tinham o costume de citar frases, ele nunca tinha notado. A primeira que ouviu, saiu da boca de Gomes. A frase foi antecedida por um “é como dizia Manuel Bandeira”, e pronto. Adalberto não se lembra da frase. Nunca lembrou. Talvez nem a tenha ouvido no dia. Nem sabe o que foi dito em seguida. Ele começou a escavar sua mente e chegou à conclusão de que nunca soube dizer uma frase.

Geralmente, as citações eram famosas. O gordo era o que mais clamava os imortais. E de todos os gêneros e correntes. Era um tal de “de acordo com Sartre”, “já dizia Fernando Pessoa”, “citando Drummond”, “parafraseando Santo Agostinho” e tantos outros que nem podem ser lembrados por Adalberto. O maldito gordo sempre tinha uma frase na manga. Mas o gordo tornou-se previsível.

Um belo dia, Adalberto notou uma frase de Clarice Linspector em meio às comemorações do aniversário de casamento de Marcos. Adalberto, que era o maior fã das frases, percebeu que, pelo terceiro ano consecutivo, a frase era dita no aniversário de casamento de Marcos. Depois disso, o perspicaz Adalberto reparou que as frases se repetiam nos mesmos dias, no decorrer dos anos. A culpa era de uma agenda, que o gordo de camisa listrada sempre carregava debaixo do braço, tal uma bíblia.

Aliás, a Bíblia Sagrada não era poupada pelos amigos. Nesse quesito, Marcos era o campeão. Sabia salmo, provérbio, palavras do Senhor no Antigo Testamento, palavras de Jesus no Novo Testamento e - as preferidas dos colegas – citações sem pé nem cabeça do Apocalipse. Quem ficava sempre desconfortável com estes episódios era Gomes, agnóstico desde que se entende por gente.

Logo naquele primeiro dia, Adalberto decidiu que também citaria uma frase, vez ou outra, só para provar sua falsa erudição. Correu para seus livros, em busca de uma fragmento que pudesse ser cuspido durante uma conversa informal. Buscou poetas, afinal, as poesias já vêm mais ou menos divididas, sendo mais fácil roubar um pedacinho. Não achou nada. Cavou os grandes autores. Em Machado de Assis, Monteiro Lobato, Friederich Nietzsche e Cecília Meirelles não encontrou seu tesouro. Quando achava uma frase fantástica, logo descobria que, assim que retirada do contexto, perdia completamente o sentido.

A vontade de se igualar aos amigos fez com que Adalberto tomasse uma medida desesperada: ligar para a ex-mulher. Ele lembrou-se que ela, professora de língua portuguesa, era grande fã de dicionários. Na certa, teria um dicionário de citações para emprestar. Quando Liliana atendeu o telefone, se surpreendeu em falar com o ex-marido, que não dava sinal de vida desde que o divórcio havia sido concluído. A surpresa foi maior ainda quando ele esclareceu o motivo. Sempre solícita, a mulher deixou à disposição de Adalberto o tão precioso dicionário.

Assim que pegou o livro, Adalberto passou horas lendo. Leu no táxi, depois leu no elevador e seguiu lendo em um dos sofás da sala, o mais próximo da porta. Foi incapaz de separar algo realmente fabuloso. Foi incapaz de decorar qualquer frase.

Desistindo da investida, Adalberto reencontrou a realidade e lamentou. Era hora de arrumar a casa, cheia de copos e latas de cerveja espalhados. Pegou um imenso saco de lixo e pôs-se a catar aquela infinidade de alumínio dispersa em todos os cômodos. Da sala ao quarto, no banheiro e na cozinha: tudo tinha cheiro de cerveja velha. Findo o recolhimento do lixo, Adalberto deixou-se despencar no sofá vermelho em frente à televisão. O controle remoto não estava ali, mas ele também não queria assistir nada. Ficou só sentado, pensando nas malditas frases de Marcos, Gomes e do gordo. Não se conformava em não saber uma única citação para impressionar os amigos.

No canto da sala, uma lata abandonada observava o homem abatido. Talvez ela fosse a solução, Adalberto pensou. Talvez aquela lata, um pouco amassada, sobre o carpete úmido, fosse a resposta para as preces de um homem à beira do precipício criativo. Ele levantou-se e caminhou pausadamente até a lata. Já com o cilindro em suas mãos, foi até a janela, de onde observava ora a paisagem, ora a lata de cerveja. Em crise, Adalberto pensou: “E se eu criasse uma frase em vez de apenas cita-la?”. Era preciso ser algo tão fantástico que deixasse os amigos com inveja de suas idéias.

Adalberto começou a pensar na cerveja. Pensou no gosto, na cor, na temperatura. Nada. Então, começou a buscar outra solução para a sua frase. Seria algo relacionado a cerveja, mas não seria a própria cerveja. Ele pensou na lata, na embalagem com doze latas, nos diferentes tamanhos de lata. Desistiu. Catou o controle de lado e ligou a televisão. A lata foi rudemente atirada à rua, como que relegada ao limbo. Sentado no sofá, o desesperado homem tentava não pensar na frase, ou na falta de frase. Foi então, que, tal um anjo visitando Paulo na cadeia, como tantas vezes Marcos invocou, surgiu algo inesperado na tela. Uma loura muito sensual, vestindo apenas um biquíni laranja, caminhava em uma praia paradisíaca. Ela esnobava os terríveis banhistas que a observavam de longe, todos acima do peso, em trajes deprimentes, e ia até um quiosque. Lá, pedia uma cerveja, e se refrescava. De um instante para o outro, os outrora repelentes banhistas se transformavam em modelos de corpos bem trabalhados, exalando masculinidades em seus olhares.

Estupefato, Adalberto arregalou os olhos. Pensou, em voz alta, “a vida é uma campanha publicitária de cerveja”. E sorriu. Estava feliz com a frase. Pensou horas em como era brilhante, em como tinha criado algo tão espetacular. Isso, até que se deu conta de que a frase estava incompleta. Por que a vida era uma campanha publicitária de cerveja? Pensou em centenas de finais possíveis. Reflexões profundas sobre a realidade, tiradas jocosas sobre a beleza, constatações óbvias sobre o mercado. Nada que fizesse a frase se tornar completa e realmente boa. Desistiu, mas jamais esqueceu daquela introdução de citação.

Passaram alguns anos. Uns sete, mais ou menos. Sete anos em que Marcos, Gomes e o gordo atiravam frases atrás de frases e Adalberto limitava-se a ouvi-las e admirá-las. Volta e meia, perdia-se em um mar de Camões, em uma floresta de José de Alencar, em uma quinta de Eça de Queiróz, em uma vinícola de Esopo. Em nenhum desses lugares achou uma frase para somar às dos amigos. Eles chegavam a competir. Quando os livros acabavam, mencionavam novelas, programas de televisão, filmes. As únicas frases de filmes que Adalberto conhecia eram “Bond, James Bond” – que jamais teria espaço para uma citação – e “Nós sempre teremos Paris”, de Casablanca – que não pegava bem ser dita em uma mesa cheia de homens. A ele, só cabia o papel de sorrir. Um sorriso tão amarelo quanto a mesa de bar, que trazia a logomarca de uma famosa marca de cerveja.

Cansado de buscar uma citação, Adalberto fugiu para seu próprio mundo, onde ninguém recita frases ao vento, em troca de nada. Ficava remoendo que a vida é uma campanha publicitária de cerveja, sabe-se lá porquê. Pensava nos milhões de comerciais das diversas marcas da bebida alcoólica mais apreciada no país. Chegou a esquecer que estava à mesa com seus amigos mais fiéis. Só voltou a conversar quando o gordo começou a contar uma história.

- Vocês não sabem – disse ele –, a minha vida está uma droga. Acho que a minha mulher quer o divórcio... Tem dito que eu estou muito ausente, que só penso em trabalhar. Eu só trabalho tanto porque quero comprar coisas bonitas para ela, levá-la para viajar, dar o mundo para ela. Eu realmente não sei o que eu faço.
- Sei que o meu casamento é bem diferente do seu – continuou Gomes –, mas lá em casa as coisas nem sempre vão bem. Eu e a Maristela temos brigado muito ultimamente. Sempre que eu posso, tento compensar as minhas ausências. Eu só estou aqui, hoje, com vocês, porque ela foi jantar na casa da minha sogra.
- Nem me fale – acrescentou Marcos. Estou tão cheio de brigar em casa, que às vezes saio só para evitar o atrito. Seria tão bom se as coisas acontecessem do jeito que a gente sempre sonhou, não é?

Divorciado há nove anos, não caberia a Adalberto dar uma lição de moral nos amigos. Na verdade, ele era o mais fracassado quando o assunto era casamento. Já havia passado por dois, todos sem sucesso. E a sua vida de solteiro também não era grande coisa. Mas ele sabia que o clima só iria ficar mais pesado. Seria preciso quebrar o gelo, dizer algo inteligente para fazer os amigos pensarem e mudar o rumo do bate-papo. Algo inteligente como uma frase. Mas Adalberto não sabia frase alguma. Olhando para as garrafas vazias e os copos que em segundos seriam esvaziados, Adalberto deixou escapar:
- Sabe, gente... A vida é uma campanha publicitária de cerveja.

Todos fizeram silêncio. Todos olharam para ele. O gordo, de olhos arregalados, mal podia acreditar no que Adalberto disse. Gomes olhava para os lados, pensava no que acabara de ser dito. Adalberto se arrependeu do que acabara de falar. Queria voltar no tempo e retirar a colocação. Os olhos dos amigos esperavam a continuação, procuravam sentido no que havia sido deixado sobre a mesa do bar. O coitado Adalberto, arremessado à ribalta, preferia as coxias onde sempre esteve.
Quando Adalberto estava se preparando para pedir que os amigos esquecessem seu comentário, Marcos, quem melhor o conhecia, foi obrigado a dizer:
- Adalberto, meu camarada, isso é a mais pura verdade.
- A mais pura verdade – repetiu o gordo.
- A vida é exatamente isso – concordou Gomes.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Guarda-chuva


O barulho da água caindo nas minhas costas não me deixa ouvir o telefone tocar. Na verdade, é lógico que deixa, senão eu não estaria aqui afirmando isto, mas esta é a desculpa que eu vou dar. Já é a quarta vez que ela liga e eu continuo metido no chuveiro para não atender. Se minha mãe ainda fosse viva, estaria parada, na porta do banheiro, o telefone na mão, pedindo para que eu falasse com Madalena. Mas a minha mãe se foi e eu nem estou escutando o telefone.

Não sou uma pessoa normal, como você pôde perceber. Fui eleito por Deus para nascer no pior dia possível, 29 de fevereiro. Este é o maldito dia que só acontece uma vez a cada quatro anos. Isto significa que, mesmo eu tenho nascido em 1964, hoje, em 2003, conto os dias para comemorar o meu décimo aniversário. É claro que você já deve estar pensando. “dia 29 de fevereiro... o mesmo dia do aniversário do...” Sim! Sim! Todo mundo conhece alguém que nasceu neste fatídico dia. Nós somos uma legião de desgraçados, aleijados de bolos e festas. Se comemoro uma dia antes: “Ah! Ainda não é seu aniversário, você ainda não nasceu.” Se eu ainda não nasci, está falando comigo, por que? É maluco, por acaso? Quando descido comemorar no dia seguinte: “Não, não. Agora já é março. Seu aniversário foi em fevereiro.” Desgraça!

A esta altura do relato, você não deve estar entendendo mais nada. Estou no chuveiro, fingindo que não ouço o telefone, nasci no dia 29 do segundo mês de um maldito ano bissexto e o título disso é “Guarda-chuva”. Calma. Eu chego lá.

Fui garoto numa época complicada, não dava para falar tudo. Meu pai, um paranaense comunista, vermelho, imenso, que metia medo até nos militares, mandava a gente nunca comentar o que era dito dentro de casa, quais livros ele lia e botava a gente para ler e de que ilha caribenha era aquela bandeira que ficava pendurada atrás da porta do quarto do casal. Era opressão em casa e na rua. Naquela época, a maior loucura que eu fiz foi me trancar no banheiro com um livro de Weber. O homem ficou louco, derrubou a porta e me bateu de cinto. Mas só de lembrar que foi o vô Ademar, pai dele, quem me deu o exemplar,o sorriso me volta aos lábios.

Como o clima não era bom no lar, doce lar, eu gastava boa parte do meu tempo na rua. Nunca fui comunista. O mais próximo que eu cheguei do socialismo foi me declarar anarquista, quando minha mãe pediu para eu tomar conta da Gabriela, minha irmã caçula. “Cada um defende o que é seu. Quando for para o bem de todas as colônias, a gente se reúne”, e saí correndo para fora. Bom, estou me estendendo. Blábláblá, o pai era grosso, blábláblá, vivia na rua. Ponto.

Por estas e outras, acabava tomando chuva, porque as marquises não me protegiam e naquele tempo não tinha shopping para ficar perambulando. Não era raro pegar uma gripe, mas confesso que a chuva estava entre as coisas que eu mais gostava. Guarda-chuva era incômodo, chato de carregar e, de vez em quando, fazia a gente passar a maior vergonha. Eu só saía de guarda-chuva por três motivos: minha mãe, meus livros, minhas meninas – as coisas com as quais eu me importava. Desde então, guarda-chuva passou a ser sinônimo de amor. Ele é incômodo, chato e, de vez em quando, faz a gente passar a maior vergonha, mas nos protege. Agora que você já entendeu que eu sou maluco, cheio de manias e porque este é o título, volto para o meu banho.

Conheci a Madalena em Londres. Estava lá eu, a trabalho, tentando comprar alguma coisa para comer num restaurante. Como inglês é uma língua capitalista, lá em casa a gente só aprendeu russo e espanhol. Tentei falar, gesticular e até me ofereci para ir à cozinha fazer o meu próprio prato, mas o cara não saía do excusme. Comecei a ficar irritado e catei minhas coisas para ir embora. Neste momento, ela tocou o meu ombro, sorriu e falou qualquer coisa com o garçom. Depois sentou e disse que já estava tudo em ordem e que a comida viria em alguns minutos:

- Da próxima vez que for a um país que fale uma língua diferente da sua tente comprar alguma coisa no supermercado. É só encher o carrinho e mostrar o dinheiro.
- Muito engraçado.
- Nunca pensei em encontrar em Londres alguém que não falasse inglês. Podem acabar achando que você veio da França.
- E eu nunca pensei que precisaria de uma mulher para conseguir algo para comer.
- Maria Madalena.
- Prazer. Karl.
- Karl?
- É... Meu pai era comunista.

Madalena morava na Inglaterra, mas, como a família toda ainda vivia no Brasil, volta e meia dava um pulo no Rio. Numa destas vindas ela me visitou e acabou ficando por aqui mesmo. Abandonou o emprego, apartamento e noivo para dividir uma quitinete em Copacabana comigo.

Passávamos as noites em claro, um olhando para o outro, e não conseguíamos fazer uma única refeição sem que ela cortasse o meu bife ou eu passasse manteiga na torrada dela. Durante estes quatro meses, vivemos para nós dois. Não havia um horário de almoço em que eu não fugisse do escritório e passasse em casa, para dar um beijo nela. Na grande maioria das vezes, comíamos lá mesmo, ela tentando virar dona de casa e eu tentando voltar na hora certa para o trabalho. Em algumas outras, saíamos para almoçar fora, ela agradecendo por não cozinhar, eu levando uma baita bronca pelo atraso. Na volta para casa, lá pelas oito, ela me esperava semi-acordada, esparramada no sofá, vendo novela, mas abandonava até o plantão da Globo para ficar quietinha comigo.

Tudo ia ás mil maravilhas em nossa vida, quando um dia, ao sair para almoçar, notamos que estava chovendo muito. Madalena catou pela mão um guarda-chuva imenso, destes que dá para uma família inteira se proteger. Descemos as escadas, empurrando e cutucando, como não poderia deixar de ser, e paramos no hall. A chuva parecia apertar a cada segundo, empoçando a calçada, parando o tráfego. Ficamos ali, namorando, esperando o clima dar uma trégua. Já passava das duas e não tardaria para acabar minha hora de almoço.

- É melhor irmos.
- Está bem.

Cruzamos o portão e, ainda sobre a marquise, pude ver o pé direito de Madalena tocar o chão molhado. Tudo parou. Ela estava linda, um pouco suada, um pouco molhada, a maquiagem escorrendo, mas uma beleza. Os cabelos enrolados e enfiados para dentro da camiseta, os braços cruzados em volta do peito, protegendo-se do frio, o guarda-chuva ainda na mão.

- Não vai abrir?
- Não.
- Por que não?
- O restaurante é logo ali e está chovendo muito. Não vai fazer a menor diferença.

Ela atravessou a rua desviando dos carros. Eu fui atrás. Entramos na churrascaria – fomos a uma churrascaria naquele dia –, eu tirei o casaco, e nos sentamos. Ela pediu um couvert e, por mais que ainda não tivesse comido nada desde o café da manhã, a fome não vinha. No lugar, apenas o estômago embrulhado, como se eu tivesse comido um salmão que dormiu fora da geladeira. Meti a mão no bolso, procurei meu celular e o achei, mas continuei procurando mesmo assim.

- O meu telefone está com você?
- Não, não está.
- Acho que deixei em casa.
- Esquece.
- Não posso. E se alguém do trabalho me ligar?
- A gente come rapidinho e vai embora.
- Acho melhor eu passar em casa para buscar.

Me levantei, vesti o casaco e voltei para o meu edifício. Calmo, nem me preocupei com a água que descia pelos meus cabelos e embaçava as minha lentes. Subi cada degrau buscando do fundo da minha alma o máximo de força possível. Abri a porta, joguei o celular sobre o sofá e entrei no banho. Já é a quinta vez que ela liga, mas, mesmo assim, eu não ouço. Quando sair daqui, vou para o quarto fazer a mala. Entro no primeiro táxi e sumo deste lugar.