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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A rua paralela – Tinteiro e páginas em branco (5 de 5)



O jornalista ficou petrificado com a cena. Um adolescente ensanguentado após devorar o coração de um homem no prédio em frente. E, em sua mão, um objeto que poderia torná-lo o ser mais poderoso da Rua do Meio – um simples bastão de giz. O assassino encarava o repórter como se dissesse que se ele não saísse do caminho seria a próxima vítima. Mário, porém, tinha uma dívida com o falecido livreiro e não podia desistir.

Ele teria ficado horas ali, olhando pela janela ao lado do leitor, mas um puxão da engenheira o trouxe de volta à realidade. Os dois correram para fora do prédio a fim de interceptar o abaporu antes que ele fugisse. Ou pior, antes que ele conseguisse tirar do papel da teoria dos caminhos alternativos.
Quando os dois chegaram ao saguão do prédio, o assassino, muito mais veloz, já estava entrando em um carro e seguindo em alta velocidade pela Rua Paralela. Sem pensar, a engenheira parou um veículo que passava em sua frente, rendeu o motorista e roubou o carro. Na direção, ela rasgou o asfalto atrás do abaporu.

Foram vinte minutos de perseguição, onde o adolescente abria vantagem a cada momento. Com o rua reta e interminável, era muito provável que o jornalista e sua parceira perdessem o assassino de vista. “Isso está ridículo. Já passamos três vezes por esse shopping center!”, gritou Mário, tentando ser ouvido sobre o barulho do motor.

Subitamente, a engenheira pisou fundo no pedal do freio, fazendo com que o jornalista batesse a cabeça no painel do carro. “Você ficou louca?”, disse ele. A mulher virou o veículo na direção oposta e acelerou. Como a Rua Paralela recomeçava sempre em seu final, em poucos segundos eles ficaram frente a frente com o carro do abaporu, claramente surpreso. “Coloca o cinto!”, ordenou a engenheira ao repórter, sendo atendida na hora. Os dois carros se chocaram e o assassino foi projetado através do para-brisa, caindo no asfalto.

Ainda tonto pelo choque contra o painel e pela batida posterior, Mário se viu obrigado a sair do carro pela janela para conter o assassino. Ele não tinha um plano, não sabia como lidar com a criatura, mas talvez se o adolescente estivesse desacordado fosse fácil dominá-lo.

Não foi. O assassino se levantou e saltou contra o repórter, mas ainda em sua forma humana. Não era tão forte ou tão ágil, o que permitiu que Mário escapasse, carregando a engenheira com ele. “Eu não sei se somos capazes de lidar com essa criatura, mas acho que podemos, pelo menos, impedir que o plano dele vá adiante. Volte para a Rua do Meio, fique no bar. Junto com o bartender e o bêbado, pense em um jeito de impedir a passagem dele”, pediu o jornalista. Deu um beijo na testa da mulher e se despediu.

Com um pedaço do cano de descarga que havia se desprendido de um dos carros, Mário golpeou o assassino, fazendo-o cair. O giz correu de um dos bolsos do adolescente até os pés do repórter, que sem pensar duas vezes pisou no bastão, fazendo uma grande marca branca no chão. O abaporu ficou descontrolado, já em sua forma de criatura. Estava pronto para matar o jornalista quando viu que um pequeno pedaço do giz ainda estava inteiro. Pegou o objeto e correu para dentro de um prédio em construção.

O jornalista seguiu o assassino. Encontrou a criatura desenhando uma porta em uma parede e dizendo algumas palavras que Mário não conseguiu ouvir. As linhas feitas com giz se iluminaram e foi possível ver uma outra rua por onde antes só se viam tijolos e cimento. O assassino atravessou o caminho alternativo, com o repórter logo atrás.

Saíram em uma outra rua. Uma via de barro cercada de pinheiros dos dois lados. Nada além de um rasgo em uma floresta densa. Mais uma rua dentro da Rua do Meio. A ausência de qualquer construção, onde pudesse haver uma porta dos fundos, indicava que talvez aquele lugar estivesse sendo pisado pela primeira vez. A criatura parecia especialmente satisfeita com sua conquista. Comemorou derrubando duas árvores, quase atingindo o repórter com o tronco de uma delas. Mário tentava se manter escondido, contando que o abaporu não sabia que havia sido seguido. A criatura explorou a área e teve até tempo de caçar um pequeno coelho – um presente para celebrar seu êxito. Mas não demorou até que ele farejasse o repórter a poucos metros. Andou calmamente na direção de Mário, esperando que sua presa fugisse. Mas ele não fugiu. Mantinha na mão o cano de descarga para acertar o ser monstruoso e deformado.

Enquanto caminhava, o abaporu derrubou mais uma árvore e levantou muita poeira com os pés. Estava babando o sangue o coelho e sua língua agitada mostrava que ainda estava com fome. Com um salto, agarrou-se a um pinheiro e mergulhou para destroçar o jornalista. Mário fechou os olhos, retraído de medo. Mas a criatura não chegou. No lugar de seu rosnado, ele só ouviu tiros. Tiros de armas voadoras. Doze pistolas apontadas na direção do abaporu. Os ignorados, a força policial do xerife, vingando o assassinato de seu líder.

O abaporu contorceu-se no chão. Aos poucos, voltou à forma do adolescente. Por impulso, Mário se aproximou, como se fosse possível, ou valesse a pena, salvar o jovem. “Ele está vindo”, sussurrou o assassino. “O primeiro está vindo e não há nada que você possa fazer”. Com a última palavra, escapou também o último fôlego. O adolescente estava morto.

Mário demorou ainda uma semana para voltar à Rua do Meio, à sua Rua do Meio, o cento de todas aquelas ruas paralelas. Neste período ele conseguiu reunir todos os livros que estavam em posse do xerife e do abaporu. Ficou hospedado na casa do leitor, que se tornou um grande amigo. O jornalista comprometeu-se ainda a encontrar um substituto para o xerife, alguém que pudesse tratar os ignorados como eles realmente mereciam.

Na Rua do Meio, parecia que o tempo tinha corrido mais rápido. O bar estava totalmente restaurado, algumas casas já estavam de pé e uma nova livraria esperava apenas o retorno do repórter – tudo fruto do bom trabalho e do esforço da engenheira.

Na livraria, Mário organizou todas as obras e colocou preço em tudo, cumprindo assim a promessa feita ao leitor de que finalmente toda a informação estaria ao livre acesso dos habitantes da Rua do Meio. Atrás do caixa, ele pendurou uma foto de seu velho amigo, como se ele estivesse sempre vigiando a livraria.

“Gostou do meu presente para você, jornalista?”, brincou a engenheira. Ele sorriu. “Não. Quer dizer sim”, complicou-se o repórter. Para relaxar, puxou um cigarro do maço de Yellows, comprado na recentemente reinaugurada banca de jornais. “Gostei muito, mas não sou mais o jornalista. Esse lugar não precisa de um jornal. Precisa de alguém que cuide de todas essas obras, de todo esse conhecimento. Se você era a enfermeira e virou a engenheira, acho que posso abandonar a identidade de jornalista para virar o livreiro. Ou simplesmente Mário, se você preferir.”

Na quartinho dos fundos, onde agora morava, o novo livreiro gastava boa parte do seu tempo debruçado sobre uma escrivaninha. Lá, com uma pena, tinteiro e páginas em branco, ele escrevia mais um capítulo da história da Rua do Meio. Tudo iluminado pela claridade que saía de um dos tantos caminhos alternativos que tinham sido abertos recentemente.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A rua paralela – Aquele que devora (4 de 5)


Os ignorados limpavam o sangue do xerife do chão da delegacia. Era possível ver os panos de chão deslizando de um lado para o outro. A engenheira checava uma lista de livros anotada pelo xerife, tentando determinar qual obra havia sido levada pelo assassino. Já o jornalista, rabiscava em sua caderneta detalhes da criatura que havia decapitado o homem que até poucas horas atrás era o principal suspeito da morte do livreiro.

“A criatura possui corpo disforme, com braços e pernas muito longos e tronco estreito”, relatava o repórter. “Parece exageradamente forte e comprovadamente veloz, tendo arrancado a cabeça de um homem com os próprios dentes em questão de segundos. Dadas as características físicas e a natureza antropofágica do ser, batizo-o em referência a uma obra da pintora brasileira Tarsila do Amaral como abaporu, aquele que devora.” Mário concluiu a página com um esboço da criatura.

Algum tempo depois, tendo checado diversas vezes toda a lista de livros, a engenheira finalmente procurou o repórter para relatar sua descoberta. “Caminhos alternativos” era o nome da obra desaparecida. Talvez aquela informação ajudasse o xerife de alguma maneira, mas o nome não dizia nada ao jornalista. “Se há uma coisa que eu aprendi durante tantos anos na redação de um jornal é que o repórter não precisa saber de nada. Ele só precisa encontrar alguém que saiba”, disse para a engenheira e para os ignorados que estavam ao seu redor.

Com uma lista telefônica da Rua do Meio em mãos, ele folheou em busca de alguém que pudesse auxiliá-lo. Não havia um bibliotecário, já que não havia bibliotecas. Todos os livros sempre estiveram concentrados na livraria. O jornalista encontrou um professor, um mestre e um doutor, mas não queria perder tempo procurando cada um para checar suas áreas de especialidade. Quando já estava quase desistindo, a engenheira encontrou um nome que certamente poderia dar um norte àquela apuração: “o leitor”.

Depois de gastarem alguns minutos tentando desvendar o endereço – Rua Paralela, lado dos que acordam cedo, prédio ora verde, ora vermelho, ora azul, acima dos vizinhos – Mário e a engenheira partiram. O “lado dos que acordam cedo” se referia ao lado oposto da delegacia, onde o sol invadia as casas logo pela manhã. O “prédio ora verde, ora vermelho, ora azul” era um edifício espelhado em frente a um restaurante com um letreiro que piscava nestas cores. E “acima dos vizinhos” fazia menção ao apartamento da cobertura. De pé, na calçada, foi fácil determinar onde o leitor morava.

Quando os dois se identificaram como amigos do livreiro, o leitor prontamente autorizou a entrada. Ele vivia em um apartamento muito amplo, com muitas fichas repletas de anotações. Não devia ser muito fácil ser um leitor em um lugar onde os livros estavam concentrados na mão de um único homem. “Acredito que vocês não tenham vindo cobrar as obras que o livreiro me emprestou na minha última visita à Rua do Meio”, o homem tinha um ar esnobe.

Mário negou. E afirmou que eles sequer sabiam sobre a existência destes livros, embora estivessem satisfeitos que parte da coleção do livreiro estivesse em boas mãos. A engenheira explicou o que queriam. “Claro, a lista. O xerife já havia me procurado em busca de ajuda, mas não sei se eu poderia ajudar em algo”, o leitor procurava seus óculos em uma gaveta cheia de pares.

“Na verdade, senhor, houve um incidente”, Mário explicou. “O xerife está morto e um dos livros que estava com ele foi roubado. Não sabemos o conteúdo do livro e tínhamos esperança de que você já o tivesse lido.”
Ao ouvir que a obra era “Caminhos alternativos”, o leitor coçou o cavanhaque e se sentou em uma poltrona que parecia confortável e velha. “Eu já li de tudo. Me lembro de uma época em que tínhamos um grupo, chamado de Clube do Livro. Nome bobo, eu sei. Leitor, escritor e livreiro, um alimentando o trabalho do outro. Infelizmente o escritor morreu e o livreiro assumiu essa função. Não que eu não gostasse do trabalho dele, mas o livreiro sempre foi muito ciumento com seu trabalho e não deixava que os exemplares circulassem livremente pela Rua do Meio. Eu entendo que para ele aquilo tudo era importante, um compêndio da história, da lei e das ciências da Rua do Meio. Mas para mim eram só livros, só material para a minha necessidade de continuar lendo. Acabamos brigando, mas eu li todos os livros dele. Hoje, gasto meu tempo fazendo anotações para ler depois. Mas eu não sou escritor, não tenho esse talento. Estou frustrado.”

O leitor prometeu ajudar, com uma condição: quando todos os livros fossem recuperados o jornalista e a engenheira reergueriam a livraria ou construiriam uma biblioteca para que todo o conhecimento da Rua do Meio ficasse à disposição de sua população. Os dois concordaram. “Desta forma, direi tudo o que sei. Vocês obviamente já perceberam que tudo é muito estranho na Rua do Meio. E só é possível atravessar entre as ruas paralelas por meio das portas dos fundos. O livreiro nunca acreditou neste tipo de limitação. Junto com o curioso, que também já nos deixou, ele investigou as passagens de uma rua para a outra. E para o mundo-além-da-esquina também. Os tais caminhos alternativos. Ele defendia que havia uma maneira para entrar e sair da Rua do Meio e que isto não estava limitado aos turistas, como você e ele. Mas ele logo descobriu alguma outra coisa e partiu para um novo livro. E ninguém nunca tentou colocar os conceitos dele em prática. O livro, em si, está inacabado.”

O leitor começou a divagar e o jornalista saiu da sala. Foi até uma escrivaninha, onde escreveu algumas linhas em sua caderneta. Em seguida, voltou com uma teoria para que o leitor e a engenheira avaliassem. “Alguém quer controlar o transito das pessoas pela Rua do Meio. Alguém foi até lá e destruiu todos os imóveis, com suas portas dos fundos, limitando o acesso às esquinas. O xerife tentou recuperar os livros, mas o assassino, vamos chamá-lo assim, sabia que um dos livros continha a fórmula para entrar e sair. Sem o livro em mãos, ele deixou o bar de pé, para garantir que ainda houvesse uma porta. Se as teorias do livreiro não forem só teorias, o assassino poderá destruir o bar, sendo o único com meios para permitir que as pessoas transitem. Ele pode destruir todas as portas dos fundos, de todas as ruas, tendo assim mais poder que o presidente Ramirez.”

A engenheira concordou com a cabeça e o leitor gesticulou um aplauso sem som. “Precisamos de alguma pista para achar o assassino”, Mário falou para seu anfitrião. “Você sabe de algum elemento que seja necessário para fazer um caminho alternativo que possa nos dar uma pista. Algo fora do comum na Rua do Meio?”

O leitor pensou um pouco e abriu um sorriso animado. “Se eu bem me lembro, e eu tenho memória quase fotográfica, para fazer um caminho alternativo é preciso desenhar uma porta na parede. O livreiro foi bem claro na necessidade de um bastão de giz para fazer um desenho. Mas nós não temos giz na Rua do Meio. Talvez por isso a teoria nunca foi posta em prática. A única pessoa que eu consigo imaginar que possa ter um bastão de giz é um turista como você. Um homem muito rico que atende pelo nome de contrabandista. E, por sorte, ele mora no prédio em frente”, disse o homem, apontando para um dos apartamentos.

Assustado, o jornalista se aproximou com calma da janela. No prédio em frente, o contrabandista tinha uma visita. A criatura que Mário batizou como abaporu. O ser saltou sobre o contrabandista, destroçou sua caixa torácica com os dentes e devorou seu coração. Depois, arrancou a porta do cofre da parede e achou um bastão de giz. Ao perceber que estava sendo observado, o abaporu se aproximou da janela. Aos poucos, seu corpo se transmutou, até se tornar o de um jovem, de cerca de dezesseis anos, aparentemente pacato e sereno. Enquanto lambia os lábios ensanguentados, o assassino acenou para o repórter, com o giz na mão.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A rua paralela – O suspeito e a lei (3 de 5)


A Rua Paralela, como os moradores da Rua do Meio a chamavam, mesmo sendo parte da Rua do Meio, era bem vasta. Enquanto a Rua do Meio tinha uma arquitetura que mesclava o moderno com o clássico, a Rua Paralela era extremamente moderna, com prédios muito altos, diversos letreiros e carros correndo a toda velocidade pela pista. O jornalista mal conseguia supor quantas pessoas viviam ali.

Mário e a engenheira seguiam o homem de cabelos compridos negros a uma certa distância. Com os livros debaixo do braço, ele era o principal suspeito da morte do livreiro, roubo de sua obra e destruição da Rua do Meio. Sem qualquer esquina e com prédios imensos, a rua era um interminável fiorde de concreto e neon.

Eles não entendiam bem o motivo, mas o suspeito já havia atravessado toda a rua, chegando novamente a seu começo. E não parava de andar. Lá estava o banco outra vez. De novo passando pela porta da loja de departamento. E mais uma vez a sede da empresa de água e energia da Rua do Meio. Talvez o homem soubesse que estava sendo seguido. Ou quem sabe ele estivesse procurando alguma coisa.

“Isso é divertido, sabe?”, a engenheira ria. “Melhor do que cuidar de doentes ou reconstruir casas. Sua rotina é sempre assim?” O jornalista negou com a cabeça. Em geral, seus dias eram pacatos. Exceto quando estava envolvido com o caso de Tábata. Nesta época, ele sentia como se estivesse ficando louco.

Em determinado ponto da rua, havia uma barraquinha de cachorro quente, onde o homem parou para comer. Apoiou os livros sobre o vidro do balcão e comeu com calma, tomando uma lata de refrigerante. Cold Cola, mais uma dessas marcas que só existem na Rua do Meio. Mário achou a cena curiosa. O sujeito sombrio tomando uma bebida sem álcool. Definitivamente fora dos estereótipos.

O jornalista queria se aproximar e ouvir sobre o que o homem falava com o vendedor de sanduíche, mas tinha medo de ser reconhecido. Não sabia se o suspeito se lembrava dele naquela tarde na livraria do falecido velho. Manteve a distância, um pouco escondido atrás da engenheira.

O homem de cabelos compridos finalmente terminou de comer. Pagou, acenou para o vendedor e foi embora, deixando para trás os livros sobre o balcão. Já estava a o que seria um quarteirão de distância quando Mário finalmente resolveu agir. Andou apressado até o barraquinha para pegar os exemplares. Talvez eles dessem alguma pista do que estava acontecendo, tivessem alguma anotação. Quando estava praticamente com as mãos nos livros, amarrados com uma corda antiga, o repórter quase caiu para trás. Eles simplesmente saíram voando, na direção do suspeito. “Os ignorados estão mesmo com ele”, sussurrou o jornalista.

Na porta de um prédio baixo, de três andares, um dos poucos da rua, o sujeito parou. Ficou olhando a fachada até que os livros voadores chegassem à sua mão. Em seguida, falou alguma coisa inaudível e entrou. Mário ordenou que a engenheira aguardasse do lado de fora enquanto ele interpelava o homem, mas ela não obedeceu. Os dois subiram os poucos degraus da entrada do prédio e acharam o suspeito sentado atrás de uma grande escrivaninha, com os pés para cima.

Com cautela, o jornalista pegou um pedaço de pau que estava encostado em um canto e avançou. Pretendia deixar o homem desacordado, amarrá-lo e só depois interrogá-lo. Seu plano caiu por terra quando algumas armas voadoras foram apontadas em sua direção. Estava cercado por ignorados.

“O senhor se incomodaria de largar este pedaço de pau”, o cabeludo nem se dava ao trabalho de olhar para Mário e a engenheira. O jornalista obedeceu, fazendo com que as armas – e os ignorados – se afastassem. “Quem é você?”, a mulher deixou a pergunta escapar.

O suspeito se levantou e apontou duas cadeiras para que Mário e a engenheira se sentassem. “Ora, eu sou o xerife. Vocês não me conhecem?”, o homem mostrava uma insígnia enferrujada que guardava na parte de dentro da jaqueta. Os dois negaram. “O que querem?”

Mário apontou para os livros. “Queremos o que você e seus homens roubaram da livraria da Rua do Meio”, disse o jornalista. “Você não sabe do que está falando”, rebateu o xerife. “Eu estou salvando estes livros.”
O xerife puxou da gaveta um cachimbo e um pouco de fumo. Enquanto acendia, tentou colocar o repórter e a engenheira a par de suas ações. “Eu e o livreiro éramos amigos. Chegamos à Rua do Meio na mesma época. Não demorou muito até que eu virasse o xerife e ele me ajudava. Por ser um turista, e poder ir e vir quando bem quisesse, ele saía sempre que era preciso seguir alguma pista até o mundo-além-da-esquina. Além disso, juntos nós escrevemos a lei”, o xerife desamarrou a corda que unia os livros e pegou o mais grosso deles. “Essa é a lei, a constituição que rege a Rua do Meio. Foi isso que eu fui buscar lá na livraria naquela tarde antes de você partir. Sim, eu sei que você estava observando.”

O homem estendeu o braço com o livro na direção de Mário. O jornalista abriu o exemplar e comprovou que havia sido escrito pelos dois. Na folha de rosto “Livreiro e Xerife” assinavam a lei. “Mas você está com os ignorados. E eles roubaram a livraria quando a Rua do Meio foi destruída.”

“Ignorados...”, o xerife parecia se divertir com a palavra. “O livreiro me contou que você os batizou assim. E você está certo, eles são ignorados. Criaturas invisíveis e intangíveis, sem fala e sem nomes. Até pouco tempo eles eram ignorados mesmo. Viviam perdidos pelas ruas, roubando para comer e trocando coisas de lugar apenas para irritar as pessoas como nós. Mas eu os descobri. Eu dei para eles um trabalho e um propósito. Hoje eles são minha força policial. E não são mais ignorados por aí.”

“Além disso”, prosseguiu o xerife, “eles não roubaram nada. Quando um dos refugiados da Rua do Meio conseguiu atravessar uma das portas dos fundos, ele veio me avisar. Assim que pude, mandei os ignorados até lá para resgatar todos os livros. Um deles ainda achou o livreiro com vida, mas não conseguiu socorrê-lo.” O homem parecia legitimamente triste, como se realmente falasse de um amigo. “Eles trouxeram os livros para cá. A lei, o livro das criaturas, os manuais sobre a Rua do Meio. Está tudo aqui. Mas alguns ignorados foram pegos no caminho. Assassinados. Os livros que eles carregavam foram capturados. Estou tentando descobrir quais, para poder determinar o interesse do interceptador.”

Mário anotava boa parte do que o xerife falava. Costume de repórter. “E quem são esses assassinos?”, perguntou. O homem de cabelos compridos soltou uma larga nuvem de fumaça. “Criaturas não catalogadas. Seres novos na Rua do Meio”, disse o xerife.

“Uma criatura como aquela?”, questionou a engenheira, com olhos arregalados e dedo em riste. O ser deformado, de corpo irregular havia invadido a delegacia. Com enorme velocidade, a criatura derrubou o jornalista e a mulher. Foi embora carregando um dos livros que estava sobre a escrivaninha. E a cabeça do xerife.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A rua paralela – O bêbado e a porta dos fundos (2 de 5)



Aquela pilha de vergalhões retorcidos e tijolos esfarelados em pouco lembrava a beleza clássica da livraria. No meio de todo aquele caos, Mário conseguiu identificar sua máquina de escrever, uma caderneta que o livreiro havia lhe dado e os óculos do velho, quebrados sobre a calçada. Com delicadeza, o jornalista pegos a armação, retirou os cacos de lente e guardou no bolso. Era a única lembrança de seu amigo.

“Nós estávamos no bar quando tudo aconteceu”, o bêbado tentava explicar tudo ao repórter. “Ouvimos os primeiros sons e tentamos correr para ver o que estava ocorrendo, mas algo estava impedindo que a porta abrisse. Pelas janelas, vimos quando as construções caíram. Todos morreram. Só quem estava no bar sobreviveu.”

Mário estimulou o bêbado a contar tudo o que lembrava. Apesar dos cinco anos que separavam a tragédia daquele dia, o homem tinha uma boa memória. “Não havia ninguém estranho na rua. Ninguém que não fosse da Rua do Meio, sabe? Apenas os mortos e os destroços. Era como se um terremoto tivesse atingido esta área sem fazer o chão tremer.”

O jornalista começou a revirar o entulho da livraria em busca de algo mais que remetesse ao velho, mas não achou nada. Nada mesmo. “Não há nenhum livro aqui”, Mário coçou a cabeça, pensativo. “Exceto pela minha caderneta, não há uma folha de papel aqui.”

Com a mão no ombro do repórter, o bêbado explicou. “Eles se foram. Quando tudo começou eles saíram voando daqui. Voando. Um a um, eles saíram da livraria e da rua do meio.”

Desde que chegou à Rua do Meio, um dos trabalhos que mais dava prazer a Mário era dar sequência ao esforço do livreiro de catalogar todas as criaturas do lugar. E neste período, alguns novos seres surgiram ou se tornaram mais populares. Uma dessas novas espécies Mário chamava de “os ignorados”.

“Como assim ignorados?”, o bêbado parecia confuso. Apesar da bebedeira, ele parecia especialmente lúcido e claro. “Os ignorados são seres que simplesmente participam de eventos, mas que nunca entram em seus registros”, contou o repórter. “Eu nunca consegui desenvolver mais do que isso a descrição, mas acho que são criaturas invisíveis ou que de alguma maneira não podem ser vistas. E livros voando para fora de uma livraria me parecem coisa que os ignorados fariam.”

O bêbado estava admirado com a teoria de Mário. Em quase cinco anos ele pensou muitas vezes naqueles livros voando, mas nunca supôs que criaturas invisíveis os estivessem carregando. Puxou uma frasqueira do bolso, um bom whiskey como não havia mais na Rua do Meio que ele guardava para ocasiões especiais e levantou para celebrar. “Um brinde ao... jornalista?” O sujeito arregalou os olhos. Mário estava desmaiado sobre os escombros da livraria.

Aos poucos, Mário recobrou a consciência. A visão ainda estava turva, mas ele podia perceber que estava na sala atrás do bar, onde ele havia conversado com a sombra antes de partir atrás de Tábata. Agora, com alguns colchonetes no chão, o lugar parecia um dormitório improvisado. Provavelmente, os sobreviventes estavam morando ali. Além do bêbado, que o carregara até o lugar, o jornalista estava cercado pelo bartender, pelo jornaleiro, pelo carteiro e por uma mulher que ele nunca vira.

“Esta é a engenheira. Costumava ser a enfermeira, mas desde que tudo desabou ela está nos ajudando a reconstruir a Rua do Meio”, o bêbado a apresentou. “Ela já ergueu uma casa no final da rua, para onde pretendemos nos mudar em breve.” A engenheira era bastante atraente. Pele morena e muitas curvas. O jornalista estava tão atordoado por causa dela quanto por causa do desmaio. “Foi ela quem te salvou. Você apagou na livraria.”

A mulher mostrou um dente grande e afiado que estava em sua mão. Parecia um dente de tubarão, bem serrilhado. “Você pisou nisso”, explicou a engenheira. “Havia alguma substância tóxica que te fez desmaiar. Conseguimos te despertar usando todo o remédio que tínhamos. Agora você tem uma dívida conosco”, ela piscou o olho esquerdo.

Mário pegou o dente e o examinou. Não se lembrava de ter visto algo semelhante na Rua do Meio. Guardou em um bolso para investigar com calma depois, mas sabia que sem as anotações do livreiro aquilo seria muito difícil.

O jornalista sabia que não adiantava ficar na Rua do Meio. As pessoas naquele bar não poderiam ajudá-lo muito e era realmente importante recuperar os livros. Livros são conhecimento e se alguém os havia roubado era porque queria que algo permanecesse no esquecimento. Mário só pensava no homem de cabelos longos que havia entrado na livraria pouco antes de sua identidade desaparecer. Era um sujeito misterioso e lidava com o livreiro com certa intimidade, apesar de nunca ter visitado o velho me mais de um ano.

Durante este ano em que Mário escreveu o Meio da Rua, o velho o ensinou bastante sobre aquele mundo em que ele estava mergulhando. Entre outras coisas, mostrou que existiam outras ruas, tão ricas e estranhas quanto a Rua do Meio. As demais, porém, não tinham qualquer ligação com o mundo exterior. Eram infindáveis ruas paralelas que não tinham esquinas. A única forma de acessá-las era por meio das portas dos fundos dos imóveis. E era assim que o jornalista iria iniciar sua busca.

Na porta dos fundos do bar, com sua caderneta na mão e o dente serrilhado no bolso, Mário se despediu do bêbado, do bartender e dos demais. Andou pela Rua Paralela, procurando o melhor caminho a seguir, sem saber muito bem como começar a investigar aquilo. Pensou em entrar em um bar para tomar uma cerveja e pedir dicas. Quem sabe conseguiria um maço de Yellows em algum lugar.

“Não entraria aí, se eu fosse você”, a voz era doce e sensual. O repórter não precisava se virar para saber que era a engenheira. “Você está procurando seres invisíveis. Por que eles não estariam aí dentro ouvindo sua conversa? Antes que você percebesse, estaria estruído, como toda a nossa rua.”

O jornalista concordou. Talvez se ele entrasse em contato com o presidente Ramirez, antes conhecido como presidente Lopes, alguma autoridade pudesse auxiliá-lo. O pensamento se dissipou no ar quando Mário foi lançado no chão por um esbarrão acidental. Um esbarrão de um homem alto, forte e de cabelos negros lisos e compridos. O último homem que o jornalista viu conversando com o livreiro. E ele tinha alguns livros debaixo do braço.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A rua paralela – Além da esquina (1 de 5)

A rua paralela é a continuação do conto A rua do meio. É importante, antes de ler este, saber o que já aconteceu.

Parte 1 - Tábata e um maço de Yellows
Parte 2 - O livreiro e o livro
Parte 3 - A sombra e a ausência
Parte 4 - Lamúria
Parte 5 - Um chope e mais um maço de Yellows



Nos fundos da livraria, o jornalista imprimia a nova edição do Meio da Rua, o jornal da Rua do Meio. Era apenas uma página, afinal não acontecia tanta coisa assim naquele lugar. Na maioria das vezes, as notícias falavam sobre novos moradores e pessoas que estavam deixando a rua, mas não era raro encontrar assassinatos e desaparecimentos. Como o próprio repórter descobriu quando conheceu a Rua do Meio, isso era mais comum do que podia se imaginar.

Aquela era uma edição especial. A quadrigentésima edição. Há mais de um ano o jornalista morava na casa que pertencia a Tábata. À falsa Tábata, pelo menos. A rotina era simples. Acordava, ia à banca de jornais comprar seu maço de Yellows, passava a manhã na rua apurando as notícias, preparava o jornal à tarde, ajudava o livreiro com seus afazeres e, por fim, como recompensa, ia ao bar tomar um chope bem gelado. Era uma rotina bastante agradável para o jornalista.

Naquela tarde, quando entregou os exemplares para que o entregador distribuísse, o repórter foi perguntar ao livreiro como podia auxiliá-lo. “Nada demais, meu caro. Preciso apenas que alguém coloque estes livros nas prateleiras de cima”, disse o velho apontando para uma pilha de cerca de 30 obras. O livreiro era baixo e nunca conseguia deixar o lugar arrumado. Desde que o jornalista, chegou, porém, as pilhas espalhadas pelos corredores haviam diminuído e as estantes estavam ficando mais cheias.

Enquanto limpava os exemplares antes de colocá-los na estante, o repórter viu um homem alto, com cabelos longos negros e muito lisos entrar. Ele foi direto no velho. Não era possível ouvir sobre o que conversavam. Com um livro na mão, o cabeludo piscou para o livreiro e foi embora.

Quando acabou a tarefa designada, o jornalista percebeu que o livreiro tentava falar algo, mas as palavras não saíam. O velho coçava a cabeça e mexia a boca, mas não conseguia dizer nada. Os olhos arregalaram-se. O repórter chegou perto do ancião, para tentar entender o que acontecia. “O senhor está bem, livreiro?”, ele perguntou. O velho se sentou e com um lenço secou a testa. “O seu nome, meu jovem”, o livreiro parecia muito confuso. “Eu esqueci o seu nome.”

“Que bobagem”, o jornalista achou graça. “Deve ser a idade. Meu nome é... É...” O jovem ficou pálido. “Eu não me lembro do meu nome.” Aquilo era comum, as pessoas perdiam seus nomes na Rua do Meio. O próprio velho não fazia ideia de como havia sido batizado. Mas o jornalista não achou que aconteceria tão depressa. Pouco mais de um ano e – puf – o nome se fora.

Era preciso fazer algo. Se o jornalista era um turista, uma das criaturas da Rua do Meio que podia ir e vir quando bem quisesse, talvez fosse hora de explorar o mundo-além-da-esquina para buscar identidade. O repórter se despediu do velho e partiu.

Ao cruzar a esquina, ele não estava mais em Copacabana, como das últimas vezes. A rua desembocava na Avenida Rio Branco, bem perto do jornal onde o repórter trabalhava. Foi ali onde ele começou a recuperar sua identidade. Em frente ao grande prédio, ele deixou escapar: “Mário... Meu nome é Mário.” Tendo abandonado o emprego há mais de um ano, ele não ousou subir. Amparado por algumas moedas que ainda tinha no bolso, ele pegou um ônibus para o bairro onde vivia.

Na entrada de seu prédio, no Bairro Peixoto, o porteiro não o reconheceu. Perguntou o que ele queria ali, a quem estava indo visitar. O mesmo porteiro que tantas vezes jogou conversa fora sobre futebol com ele. O máximo que Mário conseguiu foi descobrir que seu apartamento estava alugado para um casal.

A alguns quarteirões dali, na Santa Clara, o jornalista foi procurar a ex-mulher e a filha. Ficou parado em frente ao prédio, pois sabia que já estava na hora de a menina voltar do colégio. Quando ela chegou, estava acompanhada do padrasto, um homem mais bonito, mais simpático e mais presente que ele. Os dois passaram pelo repórter, o olharam, mas não viram nada além de um estranho.

Tendo certeza de que no dia em que perdeu seu nome também deixou de viver no mundo-além-da-esquina, Mário preferiu voltar para sua pequena casa sem janelas e para seu pequeno periódico. Seguiu andando pela Barata Ribeiro, mas não achou a famosa esquina com a banca de jornais. Viu apenas uma pequena rua que lembrava um campo de guerra.

Como quem passa em frente a um acidente, os olhos de Mário foram capturados pela rua e quando ele se deu conta já estava nela. O asfalto estava quebrado e as construções totalmente destruídas. Ninguém andava pela rua e uma constante fumaça parecia brotar do solo. O jornalista sentiu que precisava comentar com alguém, mas quando olhou para trás viu que ninguém entrava na rua. Todos andavam como se aquela rua não existisse. Por mais que lhe doesse admitir, era a Rua do Meio.

Não havia sinal da livraria ou de sua casa. Sem hotel ou restaurante. Após avançar um pouco pela rua, o jornalista percebeu que o único imóvel de pé, apesar das muitas rachaduras era o bar. O bar onde tudo começou, onde ele conheceu Tábata e a sombra.

Mário entrou afobado no bar. Cerca de seis pessoas bebiam, como se nada tivesse acontecido. O bartender ainda estava ali, mas usava um tapa-olho e tinha parte do rosto paralisada. “O que aconteceu?”, o jornalista perguntou aflito ao homem. O bartender se limitou a pegar uma tulipa que não parecia estar limpa e encher de chope, como o repórter costumava tomar todas as noites.

“Não achava que você voltaria a dar as caras por aqui”, um sujeito bêbado resmungou. O jornalista perguntou quem era ele. “Ora, eu sou o bêbado. Toda cidade precisa de um, não é mesmo? Sei que nunca nos falamos, mas eu sempre te via aqui. Nós sentimos sua falta.”

O jornalista coçou a cabeça. “Como assim sentiram a minha falta? Não fiquei mais do que três horas fora daqui!” O bêbado riu. Mário não esperava ouvir o que o sujeito estava prestes a dizer: “Três horas? Você esteve fora por mais de cinco anos!”

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A rua do meio – Um chope e mais um maço de Yellows (5 de 5)


Quando a porta do quanto quatrocentos e dois se abriu e Mário viu a lamúria ameaçando Tábata com uma faca, pareceu que o tempo tinha parado. O jornalista conseguiu pensar em uma centena de coisas em uma fração de segundos. Pensou na ex-mulher, que sempre o acusou de não tomar as atitudes certas. Pensou em Tábata, frágil e indefesa no balcão do bar. Pensou em seu trabalho. Mário era repórter policial e estava acostumado a ver crimes, mas nunca tinha estado em uma situação como aquela.

“Você precisa se acalmar, meu amigo”, disse o jornalista para o homem louro com a faca na mão. Os olhos vermelhos não paravam de lacrimejar. “Vá embora!”, ordenou a lamúria com a voz embargada e soluçante. “Você precisa me deixar terminar isso!”

O repórter deixou o livro cair perto da porta e, em pequenos passos, foi se aproximando do casal. A ruiva estava caída no chão, desesperada, com os olhos verdes implorando por ajuda. Ela não conseguia dizer nenhuma palavra. Até onde lembrava, o manuscrito do livreiro não dava muitos detalhes sobre as lamúrias. Eram criaturas que não possuíam habilidades especiais ou fraquezas, estando fadadas apenas ao sofrimento constante.

“Por que não deixamos a Tábata ir embora e conversamos só nós dois?”, o jornalista tentava distrair a lamúria. O homem gemia baixinho, como se uma dor física dominasse seus pensamentos. “Eu preciso terminar isso”, a lamúria repetia como um mantra, “posso não ter outra chance”.

Era possível sentir a determinação da lamúria. Apesar da aparência que contagiava sofrimento, a mão que segurava a faca era firme e os músculos do braço estavam bem contraídos. “Vá embora, por favor. Isso não vai acabar bem. Isso precisa acabar.”

Mário se agachou, tentando enxergar melhor as reações de Tábata. Queria passar alguma dica para ela, como se fosse pedir para que a ruiva corresse para fora do quarto. Mas ela não olhava de volta. Estava apavorada com aquela faca perto dela.

“Você vai acabar machucando a moça”, apelou Mário. Quanto mais o repórter falava, mais as lágrimas rolavam pelo rosto da lamúria. “Eu já tive uma chance”, disse o homem, “mas não consegui finalizar. Agora nada vai me impedir de acabar com isso. Preciso acabar com isso”. Mário pensava na outra chance a que a lamúria se referia. Provavelmente falava do corte sobre a sobrancelha de Tábata.

O jornalista se levantou. Já estava muito próximo da ruiva e da lamúria. E, ao olhar para o homem, começou também a chorar, já com os olhos muito vermelhos. As lágrimas entristeceram ainda mais a lamúria, que acabou relaxando um pouco o braço e estendeu a mão livre para amparar o repórter. “Precisamos acabar com isso”, disse Mário. A lamúria concordou com a cabeça.

Aproveitando-se da fraqueza do homem, Mário o empurrou contra a parede, quebrando um espelho. Com o choque, a faca voou para longe e Tábata pôde correr para a outra extremidade do quarto. A lamúria desmaiou e seu corpo ficou caído sobre os cacos do espelho.

Com cautela, para não assustá-la, Mário se aproximou de Tábata. Ele tentou acalmá-la, mas a moça parecia estar com taquicardia. “Fique tranquila. Nós já vamos embora daqui e você poderá esquecer esse cara”, disse seguro o repórter. “Deixe apenas eu pegar o livro que estava comigo para que possamos sair.”

Ao abaixar para pegar o livro, Mário viu novamente a foto que pegara na casa de Tábata. E lá estava a lamúria, antes de se tornar uma lamúria. Mas a Tábata na foto não era mais a mesma. No lugar da pele sardenta havia um tecido que parecia cinzas e ruínas. Seus cabelos ruivos não eram mais do que fumaça espessa e os olhos verdes estavam vazios. Antes que o jornalista pudesse se assustar com a imagem, um grito chamou sua atenção. Era a lamúria. E sobre ela estava a criatura cinza e esfumaçada, devorando sua caixa toráxica.

Quando finalmente o homem morreu, depois de muito agonizar e chorar, a criatura se virou para o repórter. “Não posso mais ser Tábata”, o som saía da boca cinzenta com eco, “você me viu da maneira que eu sou. Agora você será o meu hospedeiro”. A criatura se transformou em uma imensa fumaça negra, que avançou na direção de Mário. Mas antes que pudesse dominá-lo, surgiu uma barreira. Uma barreira forte, de corpo quadrado e sem cabelos. Das trevas do quarto a sombra se projetou para proteger o repórter.

No corpo da sombra, a criatura se contorcia. Parecia que ambos brigavam para dominar aquela sombra tridimensional. Temendo ter o mesmo destino da lamúria, Mário pegou a faca e cravou no ventre da sombra. Por um segundo, a sombra pareceu sorrir, como se o repórter tivesse feito a coisa certa. Logo depois, o corpo quadrado se atirou pela janela para fora do quarto, sendo dissolvido pelo sol da tarde.

No canto do quarto, um gemido chamou a atenção de Mário. Era Tábata, caída no chão. A verdadeira Tábata, dona do corpo que a criatura estava usando. “Você está bem?”, o repórter segurava a cabeça da moça. “O que aconteceu aqui?”, ela perguntou. “Você... Parece que eu te conheço, mas não sei de onde.” A mulher perguntava pelo marido e pela filha. Não se lembrava de nada do que havia acontecido recentemente.

Mário levou Tábata até o livreiro, que ficou feliz ao ver que seu manuscrito estava intacto. Ele ainda explicou a real natureza da criatura que se fazia passar pela ruiva. Era uma sugadora. Atraía pessoas para a Rua do Meio, se alimentava de suas alegrias até que não sobrasse nada além da tristeza. Foi isso o que ela fez com a sombra e com a lamúria, transformando os dois de pessoas normais para seres compostos por sofrimento. E era isso que ela pretendia fazer com Mário.

O velho se responsabilizou por levar Tábata de volta para casa, no Mundo-Além-Da-Esquina. “Como você, eu sou um turista”, revelou o livreiro. “Posso entrar e sair quando quiser. Apenas escolhi ficar aqui, para documentar o que se passa na Rua do Meio. Acho que podemos precisar de um jornalista também. Ainda não temos nenhum.”

De fato, Mário resolveu ficar na Rua do Meio. Passou a morar na casa que pertencia à criatura que dominava Tábata. Todas as noites passava na banca de jornais e depois no bar, onde podia tomar um chope e fumar seus Yellows. Com o tempo, decidiu escrever seu próprio livro, manuscrito, claro, sobre o que havia acontecido desde que conhecera a Rua do Meio. Um detalhe, porém, o incomodava em toda a história. E, por isso, procurou o livreiro para pedir ajuda.

“O senhor me disse que quem está há algum tempo na Rua do Meio perde o nome”, disse o jornalista, “mas na primeira vez que eu estive nesta rua ouvi uma conversa que me deixou confuso. E ainda não consegui entender. Um grupo bebia na rua e falava sobre um homem. Um tal presidente Lopes. Suponho que ele seja presidente da Rua do Meio, ou algo parecido. Mas se ele estivesse tempo o suficiente por aqui para ser presidente, seu nome já não teria sido esquecido?”

O livreiro riu e fez um gesto para que Mário o acompanhasse. Seguiram por entre as pilhas de manuscritos até o fim da livraria. Lá, o velho abriu uma porta, a porta dos fundos, de onde era possível ver uma rua paralela àquela onde a livraria estava situada. E além dessa, havia outra rua. E mais outra. E outra, até que a vista não alcançasse mais. “Meu jovem repórter, ainda há muito para você descobrir sobre a Rua do Meio.”

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A rua do meio – Lamúria (4 de 5)



O ventilador de teto girava, mas Mário não sentia nenhum vento em seu corpo. Jogado no sofá de sua sala, no Bairro Peixoto, o jornalista ainda tentava entender o que havia acontecido nas últimas horas. Não conseguia parar de pensar em Tábata, nos cabelos cacheados ruivos, nos olhos vedes brilhantes, nas sardas que se espalhavam pela pele, nos braços fortes e firmes, na camiseta branca quase transparente, nos jeans muitos justos. Mas, pincipalmente, pensava naquele corte sobre a sobrancelha.

Enquanto se perdia nas lembranças de abata, era trazido de volta à realidade pelo discurso da sombra viva. O sujeito forte, quadrado, sem cabelos e sem corpo fora incisivo ao dizer que Tábata era o verdadeiro risco e que Mário deveria ficar longe da Rua do Meio. Mas será que a história era verdade?

Mário não sabia em que acreditar. De um lado, ele tinha fresca a memória de Tábata tentando se abrir sobre seu agressor no bar, o surgimento da sombra na porta e a fuga da ruiva, que acabou afastando o jornalista da Rua do Meio por algum tempo. Do lado oposto, havia a conversa da última madrugada na salinha dos fundos do bar, onde a sombra tentou convencer Mário a desistir de sua busca enquanto podia.

Sem saber qual lado era o certo, restou ao repórter apurar o fato. E se a Rua do Meio não possuía aparentemente uma força policial, um órgão governamental ou, ao menos, uma assessoria de imprensa, havia entre seus imóveis uma velha livraria, tão misteriosa quanto a própria rua.

A Rua do Meio não se abriu logo à porta do prédio de Mário desta vez. Foi preciso caminhar alguns quarteirões até achar, bem no meio da Miguel Lemos, a esquina com a já conhecida banca de jornais onde Yellows era a marca de cigarros mais vendida. O jornalista foi andando pela rua, que seguia em direção ao Arpoador e desta vez era dividida por um túnel, até encontrar o pequeno livreiro de cabelos rebeldes.

Tão logo Mário entrou na livraria, o livreiro pediu que ele fizesse silencia. Então, o pequeno homem caminhou pela loja, solicitando gentilmente que os demais fregueses se retirassem, oferecendo como brinde pelo transtorno os exemplares que os mesmos consultavam no momento. Em seguida, trancou a porta da frente e guiou o jornalista até as poltronas, onde se sentaram. “Não sabia se você voltaria”, disse o livreiro, com uma xícara de chá quente nas mãos, “mas já estava preparado para termos esta conversa”.

Mário agradeceu o livro que o ajudou a encontrar a Rua do Meio, lamentou o incidente que fez com que as páginas do exemplar se soltassem e voltou a agradecer ao velho pela página da lista telefônica com o endereço de Tábata, caso ele tivesse algo a ver com aquilo. Logo depois, o jornalista implorou que o velho explicasse algo sobre a Rua do Meio que o ajudasse a entender melhor toda aquela situação, para enfim encontrar Tábata e saber se ela estava bem.

“O seu problema, meu jovem”, o livreiro falava em voz baixa, entre um gole e outro no chá, “é que você pensa na Rua do Meio como um lugar. Isso aqui não é um lugar. É apenas uma ideia”. Mário já não se espantava mais com o que ouvia e o velho sabia disso. Prosseguiu: “Esta rua não existe no espaço e não existe no tempo. Não se surpreenda se da próxima vez que você cruzar a esquina se deparar com o trânsito louco de Nova Delhi. E não se incomode se as tropas de Napoleão cruzarem o seu caminho enquanto estiver no bar em frente tomando uma cerveja.”

O repórter deixou escapar uma risada. “Nada me surpreende mais aqui”, comentou Mário, servindo para si uma xícara de chá. Desta vez, quem riu foi o livreiro. “Pois devia se surpreender com muita coisa. A Rua do Meio aprisiona almas atormentadas que não têm mais para onde ir, os espíritos que não pertencem mais ao Mundo-Além-Da-Esquina, como chamamos aqui. E a cada dia que passa, mais moradores chegam à nossa humilde rua e não conseguem mais sair. Raros são os turistas, como você, que podem ir e vir quando bem entendem.”

“Esta rua já foi uma travessa”, o velho olhava para cima, como se pudesse visualizar os primeiros dias daquele lugar esquecido pela humanidade. “Foi nessa época que eu cheguei. Não éramos mais do que dez moradores naquela época, vivendo em barracas. Muitas coisas aconteciam. Muitas pessoas desapareciam ou simplesmente mostravam suas verdadeiras faces. Homens viravam cães, mulheres viravam pássaros. Alguns dormiam o tempo todo, enquanto outros nem conseguiam piscar. A única coisa que acontecia com todos era a perda. Em pouco tempo perdíamos nossos nomes e nossos passados. Foi então que eu decidi começar a escrever. Peguei um punhado de folhas e passei a relatar todos os acontecimentos da Rua do Meio. E quando esses relatos se acumularam, eu abri esta livraria. Tudo aqui foi escrito pelo meu próprio punho, na esperança de um dia ajudar a alguém. Esse é um desses dias. Me diga como eu posso ajudar.”
O jornalista só conseguia pensar em uma única coisa. “Tábata. Se você está aqui desde os primeiros dias, deve conhecê-la. Ouvi coisas estranhas sobre ela e gostaria de saber a verdade e onde ela está.”

“Tábata”, repetiu o livreiro. “Como eu disse, perdemos nossos nomes aqui, então ela deve ser nova. E ainda não mostrou quem ela realmente é. Vou te dizer o que posso fazer para ajudá-lo.” O velho levantou-se, foi até sua escrivaninha e tirou da gaveta um livro. “Este aqui é o maior trabalho da minha vida. É apenas uma lista, com desenhos e breves descrições sobre os tipos de pessoas que vivem na Rua do Meio. Não fala das pessoas propriamente ditas. Não terá uma página sobre eu, sobre o bartender ou sobre o jornaleiro, mas sobre a essência de cada um que vive nas inúmeras residências desta rua.”

Com um forte aperto de mãos, Mário agradeceu ao velho e saiu da livraria com o exemplar. Pensou em voltar para o bar, onde poderia comer algo enquanto descobria mais sobre os habitantes da rua, mas temia que o bartender o pusesse para correr como fez na última noite. Andou mais um pouco, atravessou o túnel, que murmurava em um tom assustador, e foi encontrar do lado oposto um edifício de cinco andares. Era o maior da rua, sem dúvidas. Apesar de não haver qualquer letreiro, suas portas giratórias e os uniformes dos empregados indicavam que aquilo era um hotel. Como o livreiro havia falado que poucos eram os turistas que passavam pela Rua do Meio e que Tábata, por ainda ter um nome, era nova no local, talvez alguém do hotel soubesse quem era ela e onde estava.

Alegremente, o gerente do hotel recebeu Mário na porta e o levou até o restaurante, indicando uma mesa bem iluminada. Próximo dali, um pianista animava os presentes e os garçons passavam apressados de um lado para o outro com suas bandejas repletas de pratos. Enquanto aguardava um filé com batatas, o repórter começou a ler o livro.

Os relatos do livreiro eram fascinantes e havia todo tipo de figura na Rua do Meio. Não era possível encontrar nenhum relato sobre vampiros, lobisomens ou curupiras naquelas páginas, mas os desenhos e descrições indicavam personagens tão complexos e interessantes quanto os seres consagrados pelo folclore e pelas mitologias.

Uma das páginas chamou a atenção de Mário. Era sobre as sombras, como a que ele havia conhecido. O texto do livreiro dizia que eram pessoas que tinham suas vidas sugadas pelo desespero a um ponto que o próprio corpo desaparecia. As últimas linhas indicavam, contudo, que em geral as sombras eram traiçoeiras e tentavam enganar as pessoas, acreditando que levando desespero a elas seus corpos poderiam ser restaurados. “Não há como confiar no que a sombra disse, então. Tábata realmente está em perigo.”

Depois de almoçar e conhecer um pouco melhor sobre os tipos que viviam na Rua do Meio, Mário sacou do bolso a foto que pegara na casa de Tábata, aquela em que ela parecia estar ao lado de alguém, mas não havia outra pessoa na imagem. Com cautela para não assustar ninguém e não atrair atenção indesejada, o repórter foi de mesa em mesa perguntando se alguém conhecia a ruiva. A resposta, em todos os casos foi negativa.

De volta a seu lugar, Mário largou a foto sobre a mesa e pediu a conta. Quando o gerente apareceu para apanhar o dinheiro, deixou escapar um número. “Quatrocentos e dois”, disse o homem. O jornalista perguntou do que se tratava o número e o gerente apontou para a foto. “Tábata?”, perguntou otimista o repórter. “Não sei quem é Tábata”, disse o gerente. “Mas esse sujeito está hospedado no quarto quatrocentos e dois.”

Quando o repórter olhou novamente a foto para a qual o gerente apontava, percebeu que Tábata não estava mais sozinha na imagem. Ao lado dela, um homem louro, de olhos azuis, sorria. Certamente era ele quem tinha desaparecido com a moça, pensava Mário. Ao lembrar as complicadas numerações e endereços da Rua do Meio, preferiu conferir com o gerente onde ficava o quarto. “Não se preocupe”, divertiu-se o homem, “aqui é um espaço para turistas, a numeração é tradicional. Pode ir até a segunda porta do quarto andar, mesmo”.

Ainda que houvesse elevador, Mário não teve paciência para aguardar. Disparou pelas escadas até o quatrocentos e dois e arrombou a porta com um chute. Dentro do quarto, Tábata estava caída ao chão, com o homem louro de pé com uma faca na mão. Sua aparência estava bem distante do sorriso da foto. Seus olhos eram muito vermelhos e lacrimejavam incessantemente. Mário não sabia quem era o homem, mas sabia o que ele era. Havia visto aqueles mesmos olhos chorosos nas páginas do livreiro. O homem era uma lamúria, uma criatura que lamenta silenciosamente o próprio sofrimento.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A rua do meio – A sombra e a ausência (3 de 5)


Rua do Meio, terceira casa, sobrado. Um endereço pouco comum, mas nada surpreendente para a Rua do Meio. O difícil era encontrar a residência de Tábata. Da mesma forma que não havia uma placa com o nome da rua, também não havia letreiros com os nomes das lojas ou sinalização dos números dos edifícios. Com o endereço em mãos, Mário ia tentando adivinhar onde morava a ruiva misteriosa que ele conhecera alguns meses antes e desde então jamais abandonara seus pensamentos.

A rua, nesta encarnação, estava especialmente longa. Mesmo assim, o repórter já havia cruzado suas pistas de um lado para outro diversas vezes. Tocava interfones, pedia informações. Muitos conheciam Tábata, mas o máximo que podiam ajudar era repetindo o endereço. “Rua do Meio, terceira casa, sobrado.” Apenas quando Mário pediu socorro ao livreiro ficou mais fácil achar o apartamento.

Quando finalmente o jornalista se pôs em frente ao prédio de Tábata, sua cabeça ficou ainda mais confusa. Em nenhuma ordem possível – seja da direita pra esquerda ou vice versa – aquela era a terceira casa. E tampouco havia um sobrado. Era apenas uma casa de um andar, que aparentava ter menos de cinquenta metros quadrados, sem janelas e sem telhado. “Terceira casa se refere ao terceiro imóvel construído na Rua do Meio”, explicou o livreiro. “E o endereço diz sobrado, pois esta foi uma das casas que sobrou das construções originais desta rua.”

Não havia mais sentido em buscar sentido na Rua do Meio, Mário pensava. Mas era fundamental achar Tábata, para saber se estava tudo bem com ela. O jornalista tocou a campainha da casa algumas vezes, mas não houve resposta. Bateu à porta, mas ninguém foi atender. Foi então que ele percebeu alguns arranhões próximos à fechadura e preferiu forçar a entrada. A porta cedeu com um rangido bem agudo e a luz que entrou pela fresta crescente mostrou o interior da casa. O imóvel parecia ainda menor por dentro e havia uma escada que levava para um porão, mas lá embaixo não havia nada.

No cômodo único da casa, muitos porta-retratos se espalhavam pelos móveis. Em todos eles, Tábata parecia estar posando ao lado de alguém, mas só ela aparecia nas fotos. Era como se a outra pessoa simplesmente tivesse sido apagada. Mário guardou uma das fotos no bolso, caso precisasse explicar para alguém quem era a ruiva. Além das fotos e dos móveis, apenas um bilhete sobre a mesa de centro.

“Precisei sair, pois não estava bem. Se eu fosse você, sairia também. Me desculpe por te fazer ir tão longe, mas sempre é possível voltar pelo mesmo caminho. E, se voltar a ver a Rua do Meio entre os endereços que você tão bem conhece, escolha o caminho mais longo para voltar para casa. T.”

Mário não sabia se aquele recado era para ele, apesar de ter falado com Tábata havia menos de uma hora pelo telefone. Não sabia nem se o recado era recente, pois havia uma mancha de café seca no papel. Mas aquelas palavras confusas e genéricas não poderiam afastar o repórter. Para ter alguma chance de saber onde a jovem estava, ele foi procurar o homem que considerava o perseguidor da ruiva.

No bar, com o maço de Yellows em mãos, Mário aguardou até anoitecer. E aguardou mais um pouco, até que o bartender se aproximou. “O homem que você procura está na salinha que eu mantenho fechada ali nos fundos”, disse o responsável pelo estabelecimento, enquanto limpava a mesa do jornalista. “Se eu fosse você iria até lá o quanto antes. Ou o sujeito pode acabar desistindo. Ou pode ser você quem desista.”

O jornalista tomou o resto de cerveja que ainda havia em seu copo e foi para a tal sala. Na penumbra, não parecia haver alguém. Talvez o bartender estivesse mentindo sobre o tal homem, o sujeito grande, quadrado e sem cabelo que Mário havia visto contraluz na porta do bar na noite em que conheceu Tábata. Ou, quem sabe, o homem realmente tivesse ido embora. Quando acendeu a luz para enxergar melhor, o repórter quase caiu para trás. Havia apenas uma sombra na sala.

Uma sombra. E mais nada. Uma sombra de um homem quadrado, forte e sem cabelos. Ora em duas dimensões, grudada na parede, ora em três dimensões, indo na direção do jornalista. O homem era apenas uma sombra.

“Soube que você me procura”, disse a sombra. Mário riu de nervoso. “Espero que não tenha sido um erro”, respondeu o jornalista, puxando uma cadeira. Não sabia se apontava outra cadeira para que o homem também se sentasse. Não sabia se sombras sentavam. “Quero saber onde está Tábata.”

“O erro não foi ter me procurado”, a voz da sombra era impaciente. “O erro foi achar que eu tenho algo a ver com isso. Naquela noite, quando você me viu na porta deste bar, eu não estava atrás da Tábata. Eu estava atrás de você.”

Mário fazia cara de espanto. Mais pelo fato de estar falando com uma sombra do que propriamente pelo que a sombra estava dizendo. “Foi a Tábata que me impediu. Quando ela correu para fora do bar, fazendo com que você fosse atrás dela, eu não pude segui-los. O dia já havia nascido e eu não podia voltar para a rua naquele momento. Estava enfraquecido, sob o risco de minha sombra se esvair.”

A sombra prosseguiu com a explicação, enquanto Mário demonstrava estar claramente desconfortável. “Chame-a de anjo, de demônio ou de sereia. Do que você quiser. Tábata é uma criatura e sua verdadeira face nem de longe lembra aquela ruiva de olhos verdes que te encantou na outra noite. Você viu o corte na testa dela e acha que ela está em risco, mas é nela que você deve ficar de olho.”

“Esqueça esta mulher”, recomendou a sombra. “Você estará preso à Rua do Meio para sempre. E se isso não parece ruim o suficiente, eu te digo uma coisa. Um dia fui em quem entrou nesta rua. Achei estranho uma rua diferente, que corria entre a King Street e a Pall Mall, em Londres. Conheci uma linda morena de olhos amendoados em um pub e hoje sou só uma sombra.”

A porta se abriu e a luz que entrou diluiu a sombra na parede. Era o bartender. “O bar fechou! Está na hora de você sair, repórter! Mas se eu fosse você daria ouvido a tudo o que o homem disse.”

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A rua do meio – O livreiro e o livro (2 de 5)



Foram quinze longos dias. Mário aproveitou que tinha férias vencidas no trabalho e passou quinze dias de pé. Quinze dias dando voltas no quarteirão desenhado pelas ruas Siqueira Campos, Barata Ribeiro, Hilário de Gouveia e pela avenida Nossa Senhora de Copacabana. Quinze dias esperando que milagrosamente a Rua do Meio voltasse a aparecer, com seus bares e restaurantes, com sua banca de jornais e suas amendoeiras. E com Tábata.

As pessoas que passavam pelas ruas do bairro, os camelôs e comerciantes daquela vizinhança, já conheciam bem o repórter que tantas vezes se aproximou para perguntar se alguém conhecia a Rua do Meio. Se alguém sabia como chegar lá. De pé, na Barata Ribeiro, no local onde ele viu a rua que não existia pela primeira vez, Mário era motivo de piadas.

Quando os quinze dias a que Mário tinha direito se esgotaram ele foi obrigado a voltar ao trabalho. Munido das ferramentas comuns ao ofício de qualquer jornalista (papel, caneta, internet, telefone e curiosidade), ele pesquisou tanto quanto pode. Procurou políticos, médiuns, professores e pais de santo. Até cartógrafos ele buscou em busca de uma resposta. Ninguém jamais ouvira falar da tal Rua do Meio.

Toda noite, ao voltar para casa, ele ia até o lugar onde deveria estar a rua em que ele conheceu a bela Tábata, mas achava apenas lojas fechadas e prédios gradeados. Talvez fosse justamente o que ele temia: um delírio. Mas as memórias eram vivas demais para que fosse apenas uma loucura.

Alguns meses se passaram. Mário ainda pensava com frequência no que havia ocorrido, mas não estava mais determinado a buscar a rua. Foi então que voltou a acontecer. Saindo de um restaurante na esquina da Atlântica com a Constante Ramos, o repórter percebeu algo estranho. Uma rua que seguia da Constante até a Santa Clara, separada da Domingos Ferreira por poucos metros. Estava lá a Rua do Meio.

Muito mais comprida do que da última vez e com muitas diferenças, a Rua do Meio ainda mantinha a mesma aura. Novamente, todo o comércio estava aberto e muitas pessoas andavam pela rua, mas era impressionante como o número de lojas havia aumentado.

A primeira coisa que Mário fez ao entrar na rua foi buscar a banca de jornais, aquela mesma em que ele pedira informações da primeira vez. Agora, comprou apenas seu maço de Yellows e voltou para a rua. Andou um pouco, tentando achar Tábata ou o bar onde se conheceram, mas não havia sinal de nenhum dos dois. Preferiu então explorar uma livraria.

A tal livraria parecia mais um sebo. Havia pilhas e mais pilhas de livros usados e nenhuma identificação de seção, autor ou estilo. Em um canto, algumas poltronas indicavam que os clientes poderiam ler as obras no próprio local. De trás de uma enorme escrivaninha, um senhor muito pequeno com os cabelos muito brancos fazia anotações em fichas pautadas.

“Boa tarde, senhor”, interrompeu Mário. “Com licença. Estou procurando uma mulher.” O velho riu e tossiu um pouco. “Não tem nenhuma mulher aqui. Só um velho livreiro e muitos livros. Se quiser algo, me peça. Ou vá embora”, disse o velho.

O jornalista andou pelos corredores da livraria e folheou muitos exemplares. Nada que ele conhecesse. Nunca havia lido nenhum daqueles livros, nunca ouvira falar de nenhum dos autores. Preferiu pedir ajuda ao velho.

“Queria uma ajuda, mas não sei nem como alguém poderia me ajudar. Essa é a Rua do Meio, certo?”, Mário sentia que seria expulso do lugar. O velho livreiro saltou de sua cadeira e disse já saber do que o repórter precisava. Subiu em uma pequena pilha de livros, e de lá para uma pilha maior, até conseguir alcançar um exemplar de capa marrom. O livro estava totalmente destruído pelo tempo e as páginas pareciam que iam se soltar a qualquer momento.

Mário perguntou se deveria ler o livro em uma das poltronas, mas o velho resmungou, afirmando que seria uma leitura cansativa e ele provavelmente precisaria dormir um pouco em algum momento. “Quanto é o livro então?”, disse o jornalista, sacando a carteira do bolso. O livreiro apenas o empurrou para fora da loja e fechou a porta. O repórter temia deixar a rua e só voltar a achá-la meses depois, mas não via nenhuma solução melhor do que ler aquele livro.

Em casa, no Bairro Peixoto, Mário deitou-se no sofá para devorar aquelas páginas velhas. O livro estava todo escrito à mão, com uma caligrafia difícil de compreender. Mas foi só insistir um pouco que a leitura fluiu. A obra chamava-se “Rua do Meio – Mapas e indicações”. Não havia, contudo, qualquer mapa, apenas palavras e mais palavras.

Foram praticamente dois dias lendo o livro sem parar para comer, beber água ou usar o banheiro. E quanto mais Mário avançava nas páginas, mais ele tinha certeza que não estava compreendendo nada. E tal e qual o velho livreiro havia dito, assim que a última sentença foi concluída, o jornalista sentiu um sono incontrolável e desmaiou no sofá.

Sonhou. No sonho, Tábata estava sentada no sofá junto com ele. Seus cabelos estavam mais alaranjados, os olhos brilhavam como neon, as sardas se uniam como constelações. Ela usava um vestido verde que desenhava seu corpo com perfeição e quando falava sua voz não saía, mas era possível ouvir um canto marinho correndo por toda a sala. Tábata então se levantava, agarrava Mário pela mão e o carregava até a saída do edifício. Em frente ao prédio, havia um imenso paredão, que não terminava em nenhuma das direções. Os tijolos se seguiam eternamente para a direita, para a esquerda e para cima. Tábata, então, largava a mão de Mário e corria em direção ao paredão, até desaparecer, mas o jornalista permanecia estático. Num estalo, ela voltava a aparecer atrás dele e cobria seus olhos com as mãos. Em seguida ela sussurrava outra canção marinha em seus ouvidos e quando tirava as mãos da frente dos olhos, lá estava a Rua do Meio. E Mário acordou.

O sonho havia durado menos de um minuto, tempo suficiente para que ele se sentisse revigorado. Trocou rápido de roupa e correu para fora de casa. Bem em frente ao seu prédio estava a Rua do Meio, que se desenrolava imensa até a praia.

Desta vez, a rua parecia completa. Estava lá a livraria, mas também estava o bar. A banca de jornais continuava próxima à esquina, e todo aquele povo ainda perambulava pela rua, jogando conversa fora. Mário foi instintivamente procurar o livreiro, para agradecê-lo e devolver o exemplar, na esperança de que ele pudesse ajudar outra pessoa. Quando esticou a mão para entregar o livro, todas as páginas se soltaram. E enquanto o jornalista ajudava o velho a catar tudo, uma página diferente chamou sua atenção. Era uma página amarela, de lista telefônica. E nela, uma linha estava sublinhada em vermelho.

“T. 323 – Rua do Meio, terceira casa, sobrado”

Era Tábata, só podia ser. “323. O que é 323?”, perguntou ao livreiro. Era o telefone, segundo ele. Apenas três algarismos. Mário sacou seu celular, mas a ligação não completou. Foi então que ele entendeu. Pediu uma moeda para o velho, correu até um orelhão da Rua do Meio e de lá ligou. O telefone chamou três vezes até que alguém atendesse. A voz era aquela mesma com que ela sonhara, aquela que se confundia com um canto marinho, com uma sereia. “Achei que você não fosse ligar”, disse Tábata.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A rua do meio – Tábata e um maço de Yellows (1 de 5)



Passava das duas da manhã quando Mário voltava para casa. O trabalho como repórter o agradava muito, mas alguns dias eram tão pesados que ele precisava entrar pela madrugada para terminar uma matéria. Estava exausto e uma cerveja bem gelada ajudaria muito a relaxar. O ônibus foi do Centro até Copacabana sem parar em nenhum ponto, até que o deixou em um ponto da Barata Ribeiro.

Mário morava em Copacabana desde que nascera. Primeiro em uma casa na Bolivar, depois em um apartamento na Tonelero e agora, após seu divórcio, tudo o que conseguia pagar era uma quitinete no Bairro Peixoto. Já eram trinta e cinco anos de Copacabana e ainda assim o bairro tinha a estranha capacidade de surpreendê-lo. Esta noite era um desses momentos.

Tão logo desceu do ônibus, os olhos de Mário foram capturados por uma imagem fora do comum. A rua à sua frente, que cortava a Barata Ribeiro em direção à Nossa Senhora de Copacabana, estava extremamente iluminada e cheia de gente conversando nas calçadas. Apesar da hora avançada, todo o comércio estava aberto, com alguns restaurantes, um bar, uma banca de jornais e duas lojas de roupas. Mas nem era isso o que surpreendia o jornalista. O principal problema é que a rua ficava exatamente entre a Siqueira Campos e a Hilário de Gouveia.

“Trinta e cinco anos e nunca percebi esta rua”, pensava Mário, coçando a barba. Ele tentava puxar pela memória, mas nada vinha. Não sabia que rua era aquela. Tentou procurar por uma placa de identificação, mas não achou nada. Curioso, atravessou a Barata Ribeiro e foi até a agitada nova rua.

Mário correu até a banca, para tentar conseguir algumas informações. Ao perceber que o jornaleiro não era nada amistoso, achou que era prudente comprar alguma coisa para ganhar simpatia. Puxou uma revista qualquer da prateleira e pediu um maço de cigarros. Não tinha Marlboro, não tinha Camel, não tinha nem Hollywood. Então Mário pediu qualquer marca forte, pagou e colocou no bolso. Ao perguntar que rua era aquela, ou viu como resposta “Rua do Meio”. Ainda intrigado, mas achando a própria pergunta um tanto estranha, indagou há quanto tempo aquela rua existia. “Pelo amor de Deus, meu amigo. Você deve estar brincando”, disse o jornaleiro.

Na esquina, acendeu um dos cigarros. Yellows. Uma marca que nunca ouvira falar. Andando pela calçada, esbarrou em alguns pedestres, até que parou perto de um grupo, que bebia na rua. Eles estavam tão à vontade que certamente eram frequentadores do local. O repórter ficou próximo, para tentar ouvir alguma coisa.

O assunto era política. Eles reclamavam de corrupção. Um dos homens, o que tinha o copo mais cheio e usava óculos de lentes grossas, falava que a impunidade incentivava os desvios de dinheiro e a negligência com as necessidades da população. Outro dos rapazes, de terno cinza e gravata frouxa no colarinho, alegava que a CPI não daria em nada, pois os suspeitos de lavagem de dinheiro eram do partido do presidente. “Se ao menos o presidente Lopes, que sempre defendeu a honestidade, se posicionasse...”, suspirou um terceiro sujeito.

Presidente Lopes? Que presidente era esse? O nome do presidente da República não era nem parecido com isso. Mário não era repórter de política, mas era bem informado o suficiente para saber que não existia presidente nenhum chamado Lopes no Brasil. Nem da República, nem da Câmara, do Senado, do STF ou de qualquer CPI. Devia ser só papo de bêbado. O jornalista jogou a bituca no chão, colocou a revista debaixo do braço e entrou no bar mais próximo.

No balcão, havia apenas um banco livre. E foi lá que Mário sentou. Pediu uma caneca de chope e um pacote de amendoins. E ficou ali, saboreando a bebida, enquanto folheava a revista. Era uma dessas revistas de fofoca de celebridades. Como não assistia novelas, parecia até que estava lendo algo em outra língua. Pediu para que o bartender jogasse a revista fora e lhe trouxesse outro chope.

Na televisão sobre o balcão passava uma reprise de um jogo de futebol. Já nos acréscimos do segundo tempo, o Niteroiense ganhava do Atlético do Amazonas. Mário não se conteve: “Niteroiense? Atlético do Amazonas? Que times são esses?” Com um riso, o bartender respondeu: “Realmente, já passaram jogos melhores na televisão”.

O repórter desistiu de entender qualquer coisa. Apenas continuou ali, até a bebida acabar, até não haver mais amendoim. Duas horas se passaram e os primeiros raios da manhã surgiam do lado de fora do bar. Mário virou-se para assistir à alvorada através dos vidros empoeirados do estabelecimento, quando Tábata entrou.

Tábata era uma ruiva com a pele coberta de sardas e olhos verdes cintilantes. Vestia jeans bem apertados e uma camiseta branca que permitia ver a renda do soutien. Ela sentou-se no balcão ao lado de Mário, em um banco que havia vagado poucos minutos antes, quando um homem, brigando com a mulher no celular, partiu sem deixar gorjeta. Ela pediu um drink e perguntou se o repórter tinha cigarros. “Eu tenho, mas não é permitido fumar em estabelecimentos fechados.”

Ela divertiu-se com a preocupação de Mário, mas após um aceno permissivo do bartender ela puxou um dos Yellows do maço do jornalista. “Você vem sempre aqui?”, ele perguntou. Ela sorriu, deixando-o envergonhado. “Não, pergunto para valer. Não é cantada.”

“Eu não sou uma cliente frequente, se é isso que quer saber. Gosto mais do restaurante italiano que tem aqui ao lado, mas hoje estava procurando por algo mais forte”, ela disse. Tábata tinha braços fortes e sua aparência não era nada frágil, mas quando ela ajeitou os cabelos a opinião do repórter mudou. Um pequeno corte, bem recente, sobre a sobrancelha mostrava que ela sofria nas mãos de alguém.

Mário tentou não falar sobre aquilo. Se ofereceu para pagar uma bebida para ela, mas Tábata não aceitou. Não aceitava favores de estranhos. “Meu nome é Mário. Eu sou jornalista. E nunca estive nessa rua antes.” Ainda assim ela não aceitou a bebida, mas brindaram juntos. O maço ficou sobre o balcão e alternadamente eles puxavam cigarros e acendiam. Tentaram falar sobre banalidades, mas o corte no rosto da ruiva realmente perturbava o repórter.

“Posso perguntar o que houve, Tábata?” Ela fugiu com os olhos e voltou a esconder o corte sob os cabelos encaracolados. “Não foi nada, eu...”, ela olhava para todos os lados, como se tentasse identificar quem ainda estava no bar àquela hora. Como se tentasse tomar fôlego para criar coragem, Tábata segurou forte as mãos de Mário. Mas quando parecia que ia começar a falar, um homem surgiu à porta.

Como já havia amanhecido, tudo que o repórter viu do sujeito foi a silhueta. O homem parecia ter cerca de dois metros, não tinha cabelo e o corpo era muito quadrado. Um leve tapa daquela sombra humana já seria capaz de abrir um corte em Tábata.

Nervosa, a garota acabou derrubando a bebida que estava em suas mãos. Foi apenas um segundo, mas tempo suficiente para que o sujeito quadrado sumisse da porta. Enquanto Mário buscava uma toalha para secar Tábata, ela correu para fora do bar, com Mário logo atrás dela.

Seguiram pela Rua do Meio em direção à Nossa Senhora de Copacabana. Enquanto corriam, os letreiros iam apagando e as portas dos estabelecimentos se fechavam. As folhas das amendoeiras, que antes eram bem verdes, caíam amareladas. Quando o repórter chegou na esquina, não conseguia dizer para qual direção Tábata havia ido e não via a jovem em lugar nenhum.

Parado na via principal do bairro, ele buscava nos bolsos seu maço de Yellows, mas logo lembrou que os cigarros haviam ficado sobre o balcão do bar. Foi então que virou-se para a Rua do Meio e ela já não estava mais lá. Via apenas a agência dos Correios que sempre estivera ali.

Mário não sabia exatamente o que se passara nas últimas horas, mas precisava descobrir com urgência quem era Tábata. E o que havia acontecido com ela. E, principalmente, como voltar para a Rua do Meio.