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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

À espera – Os filhos de Éris-4 (4 de 4)


O visor do capacete estava rachado, o que dificultava um pouco a visão de Swift. Sua cabeça latejava por conta do golpe dado por Mei. A engenheira olhava para fora da sala pelo vidro da porta externa. “Você pode me explicar o que está acontecendo?”, exigiu Swift. Mei fez sinal para que ele se calasse.

“Relatório da engenheira da Central Bernard Silva de Exploração e Refino. Matrícula nove-teta-barra-cinco. Mei, Lynn. Milésimo nongentésimo quinto dia, nove horas da manhã, fim da espera pela nave de carga Conquistadora de Midgard. A missão da Fu Lu Shou em Éris-4 acabou.”

Swift tentou se levantar para ver a nave, mas Mei o impediu. “Eles ainda vão demorar um pouco a aterrissar e sair da nave. Teremos tempo para conversar um pouco”, disse ela. A partir de um dispositivo remoto, a engenheira iniciou a reprodução de um vídeo. Era o corredor da ala das cabines. Homero fugia de algo que ainda estava distante. Desesperado, ele entrava em sua cabine. Alguns minutos depois, surgia uma pessoa no corredor. A pessoa ficava muito tempo parada na frente da porta e então entrava. Alguns minutos depois, saía e refazia seu caminho no corredor.

Não era possível ver o rosto do assassino nas imagens. A pessoa usava um traje espacial com a capacete. O mesmo traje que Swift e Mei estavam vestindo. “Por que está me mostrando isso, Mei? Isso é uma confissão? Vai me matar como fez com Homero?”, o encarregado-chefe tremia um pouco sob a mira da engenheira.

“Isso é ridículo, Swift”, a mulher suava por baixo de seu traje. “Se eu fosse uma assassina você não estaria vivo agora.” O encarregado-chefe se levantou com calma e Mei deu um passo para trás. Ficaram os dois se encarando. Cada um com a certeza de que o outro era o responsável pelas mortes de Homero e Natalya. “Por que você o matou, Swift? Ele era seu amigo.”

Do lado de fora, a Conquistadora de Midgard já estava no solo. Dentro da sala, ainda confuso pela pancada, o encarregado-chefe tentava se defender. “Não ouse me acusar, Mei. Suas mentiras podem enganar outras pessoas, mas só estávamos eu e você neste Berço da Discórdia. Os últimos filhos de Éris-4. Se eu não matei, só pode ter sido você.”

“Mas você matou, Swift. Matou seu amigo. Matou uma criança. E nem mesmo sente remorso por isso”, Mei chorava. O encarregado-chefe ordenou que ela provasse a acusação. E assim foi feito. Com as imagens no monitor, ela chamou atenção para um detalhe no traje do assassino. Um pequeno corte sobre a omoplata esquerda. Swift instintivamente olhou para o seu traje. E lá estava o rasgo. “Não é possível...”, ele deixou escapar.

Swift explicou que não se lembrava de nada. Não tinha memória alguma sobre a morte de Homero ou de Natalya. “Eu sei exatamente o que aconteceu”, disse Mei. “E a culpa toda é deste rasgo. De todos nós, você era o único que saía da capital, com seu veículo de exploração terrestre, para verificar o estado das demais bases do planeta. Acidentalmente, em algum momento, você rompeu seu traje.”

Ele não parava de passar a mão pelo rasgo, ainda que suas luvas limitassem o tato. “Por que eu não morri?”, Swift estava consternado. “Muito simples”, explicou a engenheira. “A Fu Lu Shou sempre afirmou que a atmosfera de Éris-4 era imprópria para humanos. E isso é verdade. Mas a atmosfera não é letal. Ela possui apenas uma série de gases que os humanos desconheciam. Nesses quase dois mil dias, eu tive bastante tempo para pesquisar tudo a respeito do planeta.”

Vendo a inutilidade de seu traje rasgado, Swift levantou o visor do seu capacete. “Isso é verdade. Me lembro de nas últimas vezes que eu estive do lado de fora senti meu rosto dormente depois de algum tempo. Algo diferente de tudo o que eu já havia sentido. Uma força, sabe? Agora tudo faz sentido.”

“Swift, eu sei que você é uma boa pessoa. E realmente acredito que você não se lembre do que fez. Ainda assim eu preciso que você continue imóvel enquanto os tripulantes da Conquistadora de Midgard estão chegando”, Mei trocou a arma de mão. “Você vai ser preso e eu prometo testemunhar a seu favor.”
O encarregado-chefe riu com o discurso da engenheira. “Você acha mesmo que haverá um julgamento, Mei? Nós seremos levados daqui para a Colônia Humana mais próxima, a 31. E lá assassinatos são condenados com execução imediata. Nem duvidaria se me matassem aqui mesmo.”

“O que você sugere?”, Mei insistiu. “Que eu simplesmente finja que está tudo bem? E se você começar a matar novamente?” Swift se irritou. “Eu não sou um assassino! Se o problema está na atmosfera deste planeta, nós saímos daqui e tudo acaba. Se você continuar apontando esta arma para mim até os tripulantes da Conquistadora de Midgard chegarem haverá sangue em suas mãos.”

Mei já sentia o sangue em suas mãos, mas sabia que aquela era a decisão correta. Ela olhou para o lado de fora e viu que os primeiros tripulantes já começavam a sair da nave. Começava a ficar mais tranquila, quando voltou-se novamente para o encarregado-chefe. Seu rosto parecia craquelado e, quanto mais sua boca abria, mais negra ficava. A engenheira sentiu-se sugada na direção de Swift, mas reparou que seu corpo não se movera. “Então foi assim que ele matou Homero e Natalya”, pensou Mei. “Ele literalmente sugou suas vidas.”

Temendo pelo pior, Mei atirou contra Swift, mas o disparo atingiu a parede. O encarregado-chefe jogou-se na direção dela. Os dois caíram no chão. Swift aproximava sua boca do corpo de Mei, enfraquecendo-a. Enquanto isso, a engenheira tateava o chão, em busca da arma, que havia caído. No exterior da base, os tripulantes da nave de carga nem imaginavam o que estava acontecendo.

De repente, um tiro iluminou toda a sala de monitoramento, fazendo com que a tripulação percebesse a movimentação estranha no local. De baixo do corpo do encarregado-chefe, Mei tentava erguer-se. Segurou-se na cadeira, ajoelhou e por fim levantou. Viu o corpo de Swift caído aos seus pés. O rosto morto aos poucos ia voltando ao normal.

Mei saiu da sala pela porta externa e viu os tripulantes da Conquistadora de Midgard correndo em sua direção. Um alívio correu por seu corpo ao lembrar que havia deixado uma câmera gravando com áudio tudo o que acontecia na sala de monitoramento. Seria o suficiente para inocentá-la da morte do encarregado-chefe. A engenheira permitiu-se sorrir, com as lágrimas rolando por seu rosto. Só então ela percebeu. Sua face dormente. De um jeito que jamais sentira. Exatamente como Swift descrevera. Tateando seu traje, ela percebeu um rasgo eu seu peito.

O sol amarelo azulado se punha no horizonte. Mei tirou seu capacete e sorriu para os tripulantes da Conquistadora de Midgard. “A espera terminou”, disse ela, sem, contudo, emitir qualquer som. Apontou sua arma para a têmpora direita e despediu-se de Éris-4, o Berço da Discórdia.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

À espera – O mapa na parede (3 de 4)


O sentimento era dúbio em relação à pequena vítima. Enquanto Mei a acusava de ser a assassina de Homero, Swift era mais razoável. “Não há sentido em acreditar que esta criança possa ter tirado a vida do nosso chefe de segurança”, disse o encarregado-chefe. O tiro não fora letal. A arma da engenheira, como a de todos da base, estava ajustada na potência mínima. Apenas o suficiente para desacordar o oponente. A menina ofegava, desmaiava e acordava assustada, em um ciclo que se repetia. “Tem que ser ela”, Mei era a tradução do desespero, “em jamais atiraria em uma criança inocente! Eu jamais atirei em alguém na minha vida. Eu sou só uma engenheira...”

A menina, exceto pelo peito queimado, tinha a pele muito suja, principalmente nos pés, joelhos, mãos e ao redor da boca. O cabelo louro estava totalmente emaranhado e olheiras vermelhas ressaltava os olhos claros. Swift e Mei levaram a garota até a sala do encarregado-chefe, onde estavam os suprimentos médicos restantes. Em cerca de duas horas conseguiram estabilizar a menina, que parecia dormir serenamente.

Mesmo sabendo que a criança estava bem, Lynn Mei andava de um lado para o outro procurando coisas para fazer. Coisas que aplacassem a dor da menina. Coisas que a fizessem esquecer que era responsável pelo tiro que por muito pouco não matou uma inocente. “Eu preciso sair”, a engenheira falava mais rápido que de costume, “não posso ficar aqui”. Antes que Swift pudesse impedi-la, Mei já havia deixado a sala, largando sua arma sobre a mesa.

Se a criança havia chegado a Éris-4, pensava o encarregado-chefe, há registro dela. Como havia de todas as pessoas que já passaram pelo planeta, quer em uma nave, quer em um útero, quer geradas artificialmente. Swift buscou o leitor de íris, escaneou a menina e enviou os dados para o computador da Central Bernard Silva de Exploração e Refino. Em segundos, um nome surgiu no monitor. Natalya Eugene. E a partir deste nome e dos dados associados a ele, era possível reconstruir a vida da menina.

Natalya tinha nove anos, como Swift suspeitara. Era filha de Lorena Eugene, que trabalhava como técnica em refino na capital. Não tinha pai ou qualquer outro parente em Éris-4. Tanto Natalya quanto Lorena estavam agendadas para partir do Berço da Discórdia na última nave-balsa que levou passageiros para a Colônia Humana 31. Mas de acordo com os registros médicos da capital, dois dias antes da partida Lorena teve uma doença infecciosa grave que os cientistas acreditavam ter erradicado há séculos: tétano. Com a mãe morta, ninguém levou Natalya para a nave-balsa. Sem parentes, ninguém se deu conta de que Natalya havia sido esquecida. Com apenas quatro anos de idade, a menina foi deixada à própria sorte em uma das muitas alas desativadas do Central Bernard Silva de Exploração e Refino. Para sua sorte, conseguiu chegar à unidade de tratamento de águas e se alimentou dos restos de comida de Swift, Mei e Homero, que eram enviados para o local. Viveu como um rato, sem roupas, sem amor, sem contato humano. Talvez, no fim das contas, o tiro da engenheira tenha sido uma dádiva na vida da menina.

Assim que mudou o dia, pelo horário terrestre, a menina acordou. Após cinco anos rastejando sozinha pelos esgotos do planeta, não sabia falar uma palavra. E não confiava em Swift. A solução encontrada pelo encarregado-chefe foi deixa-la em sua cabine com água, comida e entretenimento suficientes para que ficasse calma até seu retorno. Se Natalya era inocente, Swift ainda tinha uma missão. Descobrir quem matou seu amigo.

De sua bolsa, o encarregado-chefe sacou o lençol onde havia gravado o mapa feito em sangue por Homero na parede de sua cabine, pouco antes de sua morte. Ao estender o tecido no chão, Swift se dedicou calmamente a entender cada parte do desenho. Cada sala, cada borrão de sangue, cada pista deixada pelo amigo. Provavelmente se Swift visse aquele mapa cinco anos antes, boa parte do desenho soaria misterioso. Após tanto tempo perambulado pela base abandonada, era como se o mapa houvesse sido desenhado por ele próprio.

Tudo era muito comum no mapa. Não havia uma seta, um “X”. Nada que indicasse por onde Swift pudesse começar sua busca. Ele começou a suspeitar que dentro de seu delírio de moribundo, Homero tivesse feito o desenho, sem ter a chance de colocar a informação mais importante. Mas Swift confiava em seu amigo. Com tantos anos de trabalho juntos, ele sabia que o chefe de segurança era detalhista e que provavelmente começara o desenho pela pista. Observando o tecido com calma, viu um pequeno retângulo que tinha as linhas mais finas. Talvez os primeiros traços de Homero na parede, antes que o fluxo de sangue atrapalhasse a execução dos detalhes.

O retângulo era uma sala. Ao fim de um corredor muito longo. Uma sala que o encarregado-chefe não conhecia. E ao checar a planta baixa oficial da Central Bernard Silva de Exploração e Refino, Swift percebeu que oficialmente aquela sala não existia. Aquela era uma ótima pista.

Com o auxílio do computador da base, Swift registrou o mapa em seu traje e saiu para procurar a sala desconhecida. Ficava a cerca de três quilômetros de sua sala, mas em uma ala em que não era possível usar qualquer meio de transporte interno por conta dos corredores estreitos. Havia um pequeno labirinto em seu caminho, mas com o apoio do mapa não houve qualquer dificuldade para superá-lo. Seu único temor era ser encontrado pelo assassino antes de descobrir a pista deixada por Homero. Quando enfim chegou ao final do corredor, encontrou a porta da tal sala travada. Era uma daquelas portas antigas, que utilizavam dobradiças e abriam movendo-se em ângulo para dentro ou para fora. Esta, no caso, abria para dentro da sala. E algo não deixava que se movesse.

A luz, porém, chamou a atenção de Swift. Raios amarelo-azulados passavam por debaixo da porta, indicando que aquela sala tinha uma janela. Ou, Swift torcia por isso, uma porta que desse acesso pelo exterior da capital.

O encarregado-chefe fez todo o caminho de volta, até o edifício principal da base. Precisava voltar à sua cabine para buscar o capacete de seu traje. Ao abrir a porta, se deparou com um cenário atordoante. O corpo de Natalya jazia em sua cama, gelado e sem vida. Tão aparentemente intocado quanto o de Homero no dia anterior. A menina nem tivera tempo de provar a comida fresca deixada por Swift. Desesperado, o homem sentou-se e chorou como uma criança.

No acesso central da capital, Swift pegou um dos veículos de exploração. Estava mais determinado do que nunca a fazer o assassino pagar por tomar as vidas de dois inocentes. Do lado de fora, iluminado pelo sol quente, sem qualquer som que não fosse o do seu próprio corpo dentro do traje, Swift se sentia ainda mais sozinho. Um pouco pela morte do amigo. Um pouco pela ausência de Mei. Mas se sentia sozinho por Natalya. Quatro pessoas viviam no Berço da Discórdia e todas viviam sozinhas.

Ao acessar a sala pelo lado de fora, o encarregado-chefe ficou satisfeito por ver que havia uma porta. Estava aflito em fazer grande esforço para quebrar a janela e encontrar o assassino bem descansado dentro da sala, pronto para matá-lo. Com a arma em punho, preparado para atirar, foi até a porta e digitou seu código de matrícula da Fu Lu Shou. O sistema de segurança não aceitou. Em seguida, digitou sete-sete-gama-doze. A matrícula de Homero. A porta abriu.

A sala tinha muitas telas e, diferente de toda aquela ala, tinha energia. Era uma sala de monitoramento, criada pelo próprio Homero para fazer captação de todas as imagens do circuito fechado de câmeras quando a maior parte da base estivesse desativada. A sala era bem ampla, com muitos equipamentos, e a porta estava bloqueada por uma estante caída no chão. Talvez, o próprio Homero tenha restringido o acesso à sala, para que seu assassino não chegasse.

Sentado na única cadeira disponível na sala, Swif ligou os equipamentos e procurou o momento estimado da morte de Homero. Esperava que as gravações mostrassem a imagem do assassino. E torcia para conseguir, daquele ponto em diante, acompanhar o paradeiro do criminoso. Mas, por mais que o encarregado-chefe mexesse nas gravações, não conseguia encontrar os registros do dia do assassinato de seu amigo. Decidiu, então, buscar os vídeos daquele mesmo dia, que mostrassem quem esteve em sua cabine para sugar a vida de Natalya.

Swift sentiu uma forte dor na cabeça. Um golpe. E aos poucos sua visão ficou turva. Desmaiou. Acordou em menos de dois minutos terrestres. Sobre ele, estava Mei. Ela apontava a arma do encarregado-chefe e também usava seu traje para exploração fora da base. “Nós precisamos esclarecer algumas coisas, Swift”, disse a engenheira decidida, ajustando o disparo da arma para a máxima potência.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

À espera – Na escuridão (2 de 4)



“Relatório do chefe de segurança da Central Bernard Silva de Exploração e Refino. Matrícula sete-sete-gama-doze. Homero, François. Milésimo octingentésimo nonagésimo nono dia, duas horas da tarde, continuo aguardando a chegada da nave de carga Conquistadora de Midgard. Desde a última hora, a situação mudou muito. Diferente do que pensávamos, não estamos sozinhos na capital. Eu prefiro não especular, pois pareceria ridículo, então suponho que seja algum antigo habitante da capital. Mas, se me perguntassem com franqueza, eu diria que até a última hora só havia três pessoas em todo o planeta. Eu estava fazendo a minha ronda diária na unidade de tratamento de águas, que está desativada, mas preferi voltar para a minha cabine. Precisava gravar meu relatório e não queria ser ouvido.”

Na gravação, François Homero estava sussurrando. A voz parecia calma, mas era nítido que ele estava se escondendo de alguém. Houve uma longa pausa até que ele retomasse a narração do relatório.
“Está se aproximando. Minha cabine é a única fechada, então não será muito difícil supor que eu estou escondido aqui. Central de comando da Fu Lu Shou, encerro aqui meu relatório, mas vou continuar gravando uma mensagem para o encarregado-chefe Robert Swift.”

As palavras sensibilizaram Swift. Naquele momento, o incidente deixava de ser apenas uma ocorrência e se tornava a morte de seu amigo. Os dois se conheciam desde criança, quando estudaram juntos na instituição infantil da Colônia Humana 27. Desde cedo, François Homero queria trabalhar com segurança e por isso estudou estratégia militar. Já Swift não tinha muita certeza do que queria e acabou cursando a academia apenas por insistência do amigo. Anos mais tarde, o agora encarregado-chefe foi contratado pela Fu Lu Shou e assim que pôde indicou Homero para uma vaga em Éris-4. Swift sentia-se culpado pelo destino do amigo.

“Meu amigo”, dizia Homero na gravação, “meu mais antigo amigo. Me desculpe por ter falhado com você nessa missão. Vamos pensar pelo lado bom”, o chefe de segurança não conteve o riso, “pelo menos acabou o tédio por aqui. Por Alá... está aqui na minha porta. Preciso desligar. Em uma hora gravo um novo relatório.”

Com um ruído que arranhou os ouvidos de Mei e Swift, a gravação foi encerrada. Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, cada um elaborando sua própria teoria sobre a morte de Homero. O corpo não possuía nenhuma marca de violência. Apenas um corte na mão, claramente feito pelo próprio segurança para desenhar o mapa na parede. Não havia sinais também de consumo de medicamentos. Era como se alguém simplesmente tivesse entrado na cabine e exigido a vida de Homero, sem sequer tocá-lo.

Em momento algum Mei relaxou a mão que segurava sua arma. Acreditava que, a qualquer momento, o assassino de Homero fosse invadir a ala das cabines para matar os dois membros restantes da missão. E se sentia especialmente exposta. Se Swift decidisse que não havia nenhum assassino, os dois voltariam a suas rotinas de trabalho. Com isso, Mei continuaria na capital, presa com a pessoa que matou Homero enquanto Swift passearia por Éris-4 a bordo de seu veículo de exploração. Para evitar que isso ocorresse, a engenheira estava obstinada em levar o encarregado-chefe para a unidade de tratamento de águas em busca de alguma pista.

“Qual a sua aposta?”, interrogou Swift enquanto tirava o lençol branco que cobria a cama da cabine de Homero. Pressionou o tecido contra a parede, gravando o mapa desenhado pelo amigo. Em seguida, guardou o lençol em sua bolsa, caso precisasse consultá-lo depois. “Ainda não tenho certeza”, disse Mei, “mas acredito que um dos detentos da ala prisional possa ter escapado antes da transferência de todos os habitantes da capital para as Colônias Humanas. Da ala prisional é fácil chegar à unidade de tratamento de águas.”

O encarregado-chefe sabia que era necessário investigar, mas achava que a ala das cabines poderia fornecer muito mais informações do que a unidade de tratamento de águas. Para ele, o encontro de Homero com seu algoz na unidade desativada fora um mero acaso.

A unidade de tratamento de águas era uma das maiores maravilhas da ciência. E a grande ferramenta que permitia a instalação de humanos em bases temporárias, como a capital de Éris-4. Nas Colônias Humanas, toda a biosfera da Terra era simulada ou recriada, com condições atmosféricas favoráveis, fauna e flora. A água era retirada de lençóis freáticos (naturais ou artificiais), rios e oceanos. No caso de planetas, como Éris-4, em que não era possível desenvolver uma biosfera, as empresas controladoras optavam pela construção de uma base temporária. E cada uma possuía uma unidade de tratamento de águas, um espaço amplo (cerca de um terço da área de toda a base), que retirava a água ou substância semelhante existente do solo, a adaptava para que virasse monóxido de dihidrogênio e eliminava as impurezas. Essa água era usada em toda a base, quer para aquecimento e resfriamento de ambientes, limpeza, geração de energia e consumo humano, sendo reaproveitada por um longo período, até que se tornasse totalmente imprópria. Neste caso, a substância era armazenada em naves-tanque, que a utilizavam para controlar a temperatura externa na decolagem e, em seguida, eliminada no espaço, anulando o risco de contaminação de humanos.

Como a Central Bernard Silva de Exploração e Refino estava praticamente desativada, não havia necessidade de manter a unidade em funcionamento. Apenas um equipamento de menor porte permanecia operando, garantindo as condições vitais necessárias no edifício administrativo, na ala das cabines e, quando necessário, em áreas que Swift, Mei e Homero precisassem acessar. Isso fazia da unidade um monstro sombrio e silencioso, que podia abrigar muitos segredos. Inclusive um assassino escondido.

Mei e Swift caminhavam com cuidado na unidade. Apesar de a maior parte da capital ter sido construída com metal, a unidade de tratamento de águas utilizava no chão fibras de carbono, semelhantes a madeira. Isso fazia com que os passos ressoassem e ecoassem, aumentando a tensão dos dois. Com suas armas e lanternas em mãos, eles exploravam o lugar em busca de alguém ou alguma pista.

Quanto mais andavam, mais barulho fazia, mas em certo momento, Swift começou a desconfiar dos sons que ouvia. Havia passos fora do ritmo em que ele e Mei andavam. Passos de outra pessoa. De uma pessoa leve e rápida. A engenheira começou a desconfiar dos barulhos também. Pararam os dois, tentando identificar de onde vinham os passos, mas o eco atrapalhava a percepção. De repente, os passos começaram a correr na direção dos dois. E, num choque, Mei foi derrubada no chão. Sua lanterna rolou para longe. E o som elétrico de um tiro foi escutado. Swift temia pela vida de sua companheira de missão. Mas ao apontar sua lanterna para ela, nada viu além de um corte começando a sangrar em seu queixo. Os passos cessaram, mas uma respiração ofegante era ouvida há poucos metros dali. Quando a luz da lanterna de Swift chegou à fonte do som, havia uma pessoa caída, com o peito queimado pelo disparo elétrico da arma de Mei. Uma menina, que não tinha mais do que nove anos terrestres.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

À espera – Berço da Discórdia (1 de 4)



O que mais incomodava Swift não era a solidão ou o tédio. Era o regime de vinte e quatro horas. Não importava aos seus empregadores que aquele planeta minúsculo em uma esquina qualquer do universo tinha uma rotação de treze horas e meia; Swift era obrigado a fazer seus relatórios baseado nas horas terrestres. E por isso mesmo, com o sol amarelo azulado bem acima de sua cabeça, fazendo-o suar por baixo de seu traje, embaçando seu visor, ele era obrigado a iniciar o relatório informando que eram quatro horas da madrugada. Ainda que o relatório completo fosse resumido a “Milésimo nongentésimo terceiro dia de espera, quatro horas da madrugada, continuo aguardando a chegada da nave de carga Conquistadora de Midgard”, o que mais irritava Swift era registrar o falso horário.

Enquanto pilotava seu veículo de exploração terrestre, o encarregado-chefe Robert Swift observava a superfície do planeta, se despedindo novamente, como fazia todos os dias, do local em que habitara por dezessete anos terrestres e torcendo para que aquela fosse a última vez que se despedia. Quando anunciaram que a Conquistadora de Midgard estava a caminho, há mil novecentos e três dias, Swift fez suas malas e, para comemorar a partida daquele planeta que aprendeu a apreciar, bebeu todos os destilados que ainda guardava em sua cabine. Desde então, sem ter com o que se embriagar e racionando o que ainda restava de comida, o homem esperava que a nave chegasse. Ou a morte. O que viesse mais rápido.

O planeta Éris-4, chamado carinhosamente por seus habitantes de Berço da Discórdia, era uma pequena maçaroca de lama que em nada lembrava a superfície da Terra. Era possível atravessar o planeta por seu paralelo principal em menos de quatro dias utilizando os veículos de exploração disponíveis. Não há oceano, apesar de a água ser abundante logo abaixo de sua crosta. Chove diariamente, mas a água é rapidamente absorvida pelo solo, extremamente pastoso.

Até onde a vista alcançava da Central Bernard Silva de Exploração e Refino, a paisagem era coberta por uma vegetação rasteira, que todo dia desaparecia no horário das chuvas, mas que voltava a se erguer da lama no dia seguinte. As plantas serviam de alimento para uns pequenos pássaros sem penas, os únicos animais que podiam ser vistos a olho nu. E a carne destes pássaros era extremamente letal aos seres humanos.

Diziam os bioarquitetos que chegaram a Éris-4 a bordo da nave Serpente que o planeta já havia sido cheio de vida. Nada de vida inteligente. A superfície do Berço da Discórdia era coberta de vegetação exuberante e muitas eram as espécies de animais – pequenos pássaros, pequenos roedores e pequenos anfíbios, principalmente – que se reproduziam sob o sol amarelo azulado. Talvez nesta época o planeta não merecesse seu apelido.

Ninguém jamais ouvira falar de Éris-4 até cerca de dois séculos terrestres. Foi nessa época que a nave Comodoro Valente se chocou contra o planeta, ao voltar de uma missão diplomática. Boa parte da tripulação morreu com a queda, mas alguns oficiais conseguiram enviar uma mensagem de socorro. O resgate não chegou a tempo. Foram mais de trinta anos entre o acidente e a aterrissagem da Serpente.

A Serpente não era exatamente uma nave de auxílio. Era um monstro metálico com capacidade para transportar mais de cento e cinquenta tripulantes, além de cargas e equipamentos. E a nave já chegou a Éris-4 com uma missão: explorar o potencial econômico do pequeno planeta. Durante cinco anos, as equipes da Serpente tentaram descobrir de que modo aquela bola lamacenta poderia contribuir para o desenvolvimento da Terra e das Colônias Humanas. Neomineradores, geólogos, bioarquitetos, estrategistas militares e operadores logísticos percorreram cada quilômetro quadrado, sem enxergar muita serventia naquele corpo celeste.

Pouco antes de a Serpente partir, uma explosão chamou a atenção dos cientistas. Enquanto alguns neomineradores tentavam perfurar o solo em um local que eles acreditavam ser rico em carvão, o mau funcionamento de um dos equipamentos acabou matando parte da equipe. Para quem estava de longe, parecia apenas fogo, mas quando os sobreviventes voltaram para a nave, seus trajes estavam coberto por um líquido viscoso de um verde muito escuro. Era um combustível fóssil.

Apesar de o petróleo da Terra ter sido totalmente explorado até o século vinte e três e os humanos terem desenvolvidos fontes alternativas de energia, nenhuma jamais performou tão bem quanto os combustíveis fósseis. Boa parte de todas as missões espaciais foram baseadas na busca por óleos e minérios. Quando a notícia de que havia combustível fóssil em Éris-4 chegou à Terra, a Fu Lu Shou, conglomerado interplanetário que operava a nave Comodoro Valente, reivindicou a descoberta e posse do planeta. A batalha judicial entre a Fu Lu Shou e a Luckywinds, dona da nave Serpente, antes parceiras e agora rivais, levou Éris-4 a ser apelidada de Berço da Discórdia.

Quando finalmente a Fu Lu Shou garantiu sua posse sobre Éris-4, muitas naves chegaram ao pequeno planeta. Em pouco tempo, foi construída uma capital, toda de metal, que combinava edifícios administrativos, área para armazenamento e refino do óleo verde e espaço para convivência. O complexo foi batizado de Central Bernard Silva de Exploração e Refino, em homenagem ao piloto da Comodoro Valente. Nas décadas seguintes foram erguidas plantas de exploração, que alimentavam a capital com o óleo, que após ser processado era mandado para a Terra e para as Colônias Humanas por meio das naves-tanques.

Swift chegou a Éris-4 no auge da produção. A cada mês uma nave-tanque partia do planeta levando o óleo e outra chegava trazendo comida e suprimentos. O agora encarregado-chefe, na época, era da força policial. Em dezessete anos terrestres ele cresceu organicamente na hierarquia da capital, passando pelos importantes cargos de comandante de polícia e conselheiro do encarregado-chefe. Seu maior erro foi brigar com o responsável pela capital um dia antes de ser entregue a mensagem que mudou a rotina do planeta.

A mensagem foi levada por uma nave-tanque. A primeira que chegara a Éris-4 em mais de um ano. A carta era assinada pelo presidente da Fu Lu Shou e avisava sobre a venda do Berço da Discórdia para a Luckywinds. Por conta de uma guerra entre duas Colônias Humanas que não tinham contrato com a Fu Lu Shou, as naves-tanque eram obrigadas a fazer um percurso muito maior para chegar ao planeta. Com o aumento do custo logístico, o óleo proveniente de Éris-4 não era mais competitivo no mercado e a companhia havia decidido vender o ativo para a rival, cujas naves tinham autorização para atravessar a zona de guerra.

Naves-balsas foram até o Berço da Discórdia para levar todos os seus habitantes para a Colônia Humana mais próxima. Era necessário, porém, que um pequeno contingente ficasse na capital, à espera de seus novos donos. A briga de Swift com o encarregado-chefe (por motivo banal; um desentendimento por conta do filho de um que queria namorar o filho do outro) fez com que ele fosse o escolhido para ficar responsável pela Central Bernard Silva de Exploração e Refino até que a Conquistadora de Midgard chegasse.

Além de Swift, apenas outras duas pessoas continuavam em Éris-4. Um delas era Mei, engenheira responsável por manter a capital funcionando. A outra era Homero, grande amigo de Swift, a cargo da segurança. Os três, contudo, mal se viam. Afogados em suas tarefas, eles se reuniam uma vez por semana para consolidarem seus relatórios. E uma hora depois voltavam para suas solidões.

No milésimo nongentésimo terceiro dia, a reunião demorou mais do que o previsto para começar. Swift e Mei conversavam na sala do encarregado-chefe por mais de duas horas, quando decidiram ir à cabine de Homero. Swift sabia que seu amigo havia estocado todos os medicamentos disponíveis na capital e desconfiava que, volta e meia, deixava de trabalhar para se drogar. Talvez ele tivesse esquecido a reunião por conta disso.

Da sala do encarregado-chefe à ala das cabines era uma longa caminhada. Por mais que Swift acreditasse que era apenas uma banalidade que afastava o amigo do compromisso, Mei não estava tão segura. Preferiu fazer o trajeto com sua arma em punho.

E o pior aconteceu. Na cabine de Homero, o corpo do chefe da segurança estava caído no chão, morto há três ou quatro dias. Nas paredes, marcas de sangue pareciam desenhar a planta baixa da capital. E sobre a mesa, um pequeno disco tinha escrito o nome de Robert Swift. Era o último relatório de Homero, com a data de duas horas da tarde do milésimo octingentésimo nonagésimo nono dia à espera da Conquistadora de Midgard.