terça-feira, 23 de outubro de 2012

A rua do meio – O livreiro e o livro (2 de 5)



Foram quinze longos dias. Mário aproveitou que tinha férias vencidas no trabalho e passou quinze dias de pé. Quinze dias dando voltas no quarteirão desenhado pelas ruas Siqueira Campos, Barata Ribeiro, Hilário de Gouveia e pela avenida Nossa Senhora de Copacabana. Quinze dias esperando que milagrosamente a Rua do Meio voltasse a aparecer, com seus bares e restaurantes, com sua banca de jornais e suas amendoeiras. E com Tábata.

As pessoas que passavam pelas ruas do bairro, os camelôs e comerciantes daquela vizinhança, já conheciam bem o repórter que tantas vezes se aproximou para perguntar se alguém conhecia a Rua do Meio. Se alguém sabia como chegar lá. De pé, na Barata Ribeiro, no local onde ele viu a rua que não existia pela primeira vez, Mário era motivo de piadas.

Quando os quinze dias a que Mário tinha direito se esgotaram ele foi obrigado a voltar ao trabalho. Munido das ferramentas comuns ao ofício de qualquer jornalista (papel, caneta, internet, telefone e curiosidade), ele pesquisou tanto quanto pode. Procurou políticos, médiuns, professores e pais de santo. Até cartógrafos ele buscou em busca de uma resposta. Ninguém jamais ouvira falar da tal Rua do Meio.

Toda noite, ao voltar para casa, ele ia até o lugar onde deveria estar a rua em que ele conheceu a bela Tábata, mas achava apenas lojas fechadas e prédios gradeados. Talvez fosse justamente o que ele temia: um delírio. Mas as memórias eram vivas demais para que fosse apenas uma loucura.

Alguns meses se passaram. Mário ainda pensava com frequência no que havia ocorrido, mas não estava mais determinado a buscar a rua. Foi então que voltou a acontecer. Saindo de um restaurante na esquina da Atlântica com a Constante Ramos, o repórter percebeu algo estranho. Uma rua que seguia da Constante até a Santa Clara, separada da Domingos Ferreira por poucos metros. Estava lá a Rua do Meio.

Muito mais comprida do que da última vez e com muitas diferenças, a Rua do Meio ainda mantinha a mesma aura. Novamente, todo o comércio estava aberto e muitas pessoas andavam pela rua, mas era impressionante como o número de lojas havia aumentado.

A primeira coisa que Mário fez ao entrar na rua foi buscar a banca de jornais, aquela mesma em que ele pedira informações da primeira vez. Agora, comprou apenas seu maço de Yellows e voltou para a rua. Andou um pouco, tentando achar Tábata ou o bar onde se conheceram, mas não havia sinal de nenhum dos dois. Preferiu então explorar uma livraria.

A tal livraria parecia mais um sebo. Havia pilhas e mais pilhas de livros usados e nenhuma identificação de seção, autor ou estilo. Em um canto, algumas poltronas indicavam que os clientes poderiam ler as obras no próprio local. De trás de uma enorme escrivaninha, um senhor muito pequeno com os cabelos muito brancos fazia anotações em fichas pautadas.

“Boa tarde, senhor”, interrompeu Mário. “Com licença. Estou procurando uma mulher.” O velho riu e tossiu um pouco. “Não tem nenhuma mulher aqui. Só um velho livreiro e muitos livros. Se quiser algo, me peça. Ou vá embora”, disse o velho.

O jornalista andou pelos corredores da livraria e folheou muitos exemplares. Nada que ele conhecesse. Nunca havia lido nenhum daqueles livros, nunca ouvira falar de nenhum dos autores. Preferiu pedir ajuda ao velho.

“Queria uma ajuda, mas não sei nem como alguém poderia me ajudar. Essa é a Rua do Meio, certo?”, Mário sentia que seria expulso do lugar. O velho livreiro saltou de sua cadeira e disse já saber do que o repórter precisava. Subiu em uma pequena pilha de livros, e de lá para uma pilha maior, até conseguir alcançar um exemplar de capa marrom. O livro estava totalmente destruído pelo tempo e as páginas pareciam que iam se soltar a qualquer momento.

Mário perguntou se deveria ler o livro em uma das poltronas, mas o velho resmungou, afirmando que seria uma leitura cansativa e ele provavelmente precisaria dormir um pouco em algum momento. “Quanto é o livro então?”, disse o jornalista, sacando a carteira do bolso. O livreiro apenas o empurrou para fora da loja e fechou a porta. O repórter temia deixar a rua e só voltar a achá-la meses depois, mas não via nenhuma solução melhor do que ler aquele livro.

Em casa, no Bairro Peixoto, Mário deitou-se no sofá para devorar aquelas páginas velhas. O livro estava todo escrito à mão, com uma caligrafia difícil de compreender. Mas foi só insistir um pouco que a leitura fluiu. A obra chamava-se “Rua do Meio – Mapas e indicações”. Não havia, contudo, qualquer mapa, apenas palavras e mais palavras.

Foram praticamente dois dias lendo o livro sem parar para comer, beber água ou usar o banheiro. E quanto mais Mário avançava nas páginas, mais ele tinha certeza que não estava compreendendo nada. E tal e qual o velho livreiro havia dito, assim que a última sentença foi concluída, o jornalista sentiu um sono incontrolável e desmaiou no sofá.

Sonhou. No sonho, Tábata estava sentada no sofá junto com ele. Seus cabelos estavam mais alaranjados, os olhos brilhavam como neon, as sardas se uniam como constelações. Ela usava um vestido verde que desenhava seu corpo com perfeição e quando falava sua voz não saía, mas era possível ouvir um canto marinho correndo por toda a sala. Tábata então se levantava, agarrava Mário pela mão e o carregava até a saída do edifício. Em frente ao prédio, havia um imenso paredão, que não terminava em nenhuma das direções. Os tijolos se seguiam eternamente para a direita, para a esquerda e para cima. Tábata, então, largava a mão de Mário e corria em direção ao paredão, até desaparecer, mas o jornalista permanecia estático. Num estalo, ela voltava a aparecer atrás dele e cobria seus olhos com as mãos. Em seguida ela sussurrava outra canção marinha em seus ouvidos e quando tirava as mãos da frente dos olhos, lá estava a Rua do Meio. E Mário acordou.

O sonho havia durado menos de um minuto, tempo suficiente para que ele se sentisse revigorado. Trocou rápido de roupa e correu para fora de casa. Bem em frente ao seu prédio estava a Rua do Meio, que se desenrolava imensa até a praia.

Desta vez, a rua parecia completa. Estava lá a livraria, mas também estava o bar. A banca de jornais continuava próxima à esquina, e todo aquele povo ainda perambulava pela rua, jogando conversa fora. Mário foi instintivamente procurar o livreiro, para agradecê-lo e devolver o exemplar, na esperança de que ele pudesse ajudar outra pessoa. Quando esticou a mão para entregar o livro, todas as páginas se soltaram. E enquanto o jornalista ajudava o velho a catar tudo, uma página diferente chamou sua atenção. Era uma página amarela, de lista telefônica. E nela, uma linha estava sublinhada em vermelho.

“T. 323 – Rua do Meio, terceira casa, sobrado”

Era Tábata, só podia ser. “323. O que é 323?”, perguntou ao livreiro. Era o telefone, segundo ele. Apenas três algarismos. Mário sacou seu celular, mas a ligação não completou. Foi então que ele entendeu. Pediu uma moeda para o velho, correu até um orelhão da Rua do Meio e de lá ligou. O telefone chamou três vezes até que alguém atendesse. A voz era aquela mesma com que ela sonhara, aquela que se confundia com um canto marinho, com uma sereia. “Achei que você não fosse ligar”, disse Tábata.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A rua do meio – Tábata e um maço de Yellows (1 de 5)



Passava das duas da manhã quando Mário voltava para casa. O trabalho como repórter o agradava muito, mas alguns dias eram tão pesados que ele precisava entrar pela madrugada para terminar uma matéria. Estava exausto e uma cerveja bem gelada ajudaria muito a relaxar. O ônibus foi do Centro até Copacabana sem parar em nenhum ponto, até que o deixou em um ponto da Barata Ribeiro.

Mário morava em Copacabana desde que nascera. Primeiro em uma casa na Bolivar, depois em um apartamento na Tonelero e agora, após seu divórcio, tudo o que conseguia pagar era uma quitinete no Bairro Peixoto. Já eram trinta e cinco anos de Copacabana e ainda assim o bairro tinha a estranha capacidade de surpreendê-lo. Esta noite era um desses momentos.

Tão logo desceu do ônibus, os olhos de Mário foram capturados por uma imagem fora do comum. A rua à sua frente, que cortava a Barata Ribeiro em direção à Nossa Senhora de Copacabana, estava extremamente iluminada e cheia de gente conversando nas calçadas. Apesar da hora avançada, todo o comércio estava aberto, com alguns restaurantes, um bar, uma banca de jornais e duas lojas de roupas. Mas nem era isso o que surpreendia o jornalista. O principal problema é que a rua ficava exatamente entre a Siqueira Campos e a Hilário de Gouveia.

“Trinta e cinco anos e nunca percebi esta rua”, pensava Mário, coçando a barba. Ele tentava puxar pela memória, mas nada vinha. Não sabia que rua era aquela. Tentou procurar por uma placa de identificação, mas não achou nada. Curioso, atravessou a Barata Ribeiro e foi até a agitada nova rua.

Mário correu até a banca, para tentar conseguir algumas informações. Ao perceber que o jornaleiro não era nada amistoso, achou que era prudente comprar alguma coisa para ganhar simpatia. Puxou uma revista qualquer da prateleira e pediu um maço de cigarros. Não tinha Marlboro, não tinha Camel, não tinha nem Hollywood. Então Mário pediu qualquer marca forte, pagou e colocou no bolso. Ao perguntar que rua era aquela, ou viu como resposta “Rua do Meio”. Ainda intrigado, mas achando a própria pergunta um tanto estranha, indagou há quanto tempo aquela rua existia. “Pelo amor de Deus, meu amigo. Você deve estar brincando”, disse o jornaleiro.

Na esquina, acendeu um dos cigarros. Yellows. Uma marca que nunca ouvira falar. Andando pela calçada, esbarrou em alguns pedestres, até que parou perto de um grupo, que bebia na rua. Eles estavam tão à vontade que certamente eram frequentadores do local. O repórter ficou próximo, para tentar ouvir alguma coisa.

O assunto era política. Eles reclamavam de corrupção. Um dos homens, o que tinha o copo mais cheio e usava óculos de lentes grossas, falava que a impunidade incentivava os desvios de dinheiro e a negligência com as necessidades da população. Outro dos rapazes, de terno cinza e gravata frouxa no colarinho, alegava que a CPI não daria em nada, pois os suspeitos de lavagem de dinheiro eram do partido do presidente. “Se ao menos o presidente Lopes, que sempre defendeu a honestidade, se posicionasse...”, suspirou um terceiro sujeito.

Presidente Lopes? Que presidente era esse? O nome do presidente da República não era nem parecido com isso. Mário não era repórter de política, mas era bem informado o suficiente para saber que não existia presidente nenhum chamado Lopes no Brasil. Nem da República, nem da Câmara, do Senado, do STF ou de qualquer CPI. Devia ser só papo de bêbado. O jornalista jogou a bituca no chão, colocou a revista debaixo do braço e entrou no bar mais próximo.

No balcão, havia apenas um banco livre. E foi lá que Mário sentou. Pediu uma caneca de chope e um pacote de amendoins. E ficou ali, saboreando a bebida, enquanto folheava a revista. Era uma dessas revistas de fofoca de celebridades. Como não assistia novelas, parecia até que estava lendo algo em outra língua. Pediu para que o bartender jogasse a revista fora e lhe trouxesse outro chope.

Na televisão sobre o balcão passava uma reprise de um jogo de futebol. Já nos acréscimos do segundo tempo, o Niteroiense ganhava do Atlético do Amazonas. Mário não se conteve: “Niteroiense? Atlético do Amazonas? Que times são esses?” Com um riso, o bartender respondeu: “Realmente, já passaram jogos melhores na televisão”.

O repórter desistiu de entender qualquer coisa. Apenas continuou ali, até a bebida acabar, até não haver mais amendoim. Duas horas se passaram e os primeiros raios da manhã surgiam do lado de fora do bar. Mário virou-se para assistir à alvorada através dos vidros empoeirados do estabelecimento, quando Tábata entrou.

Tábata era uma ruiva com a pele coberta de sardas e olhos verdes cintilantes. Vestia jeans bem apertados e uma camiseta branca que permitia ver a renda do soutien. Ela sentou-se no balcão ao lado de Mário, em um banco que havia vagado poucos minutos antes, quando um homem, brigando com a mulher no celular, partiu sem deixar gorjeta. Ela pediu um drink e perguntou se o repórter tinha cigarros. “Eu tenho, mas não é permitido fumar em estabelecimentos fechados.”

Ela divertiu-se com a preocupação de Mário, mas após um aceno permissivo do bartender ela puxou um dos Yellows do maço do jornalista. “Você vem sempre aqui?”, ele perguntou. Ela sorriu, deixando-o envergonhado. “Não, pergunto para valer. Não é cantada.”

“Eu não sou uma cliente frequente, se é isso que quer saber. Gosto mais do restaurante italiano que tem aqui ao lado, mas hoje estava procurando por algo mais forte”, ela disse. Tábata tinha braços fortes e sua aparência não era nada frágil, mas quando ela ajeitou os cabelos a opinião do repórter mudou. Um pequeno corte, bem recente, sobre a sobrancelha mostrava que ela sofria nas mãos de alguém.

Mário tentou não falar sobre aquilo. Se ofereceu para pagar uma bebida para ela, mas Tábata não aceitou. Não aceitava favores de estranhos. “Meu nome é Mário. Eu sou jornalista. E nunca estive nessa rua antes.” Ainda assim ela não aceitou a bebida, mas brindaram juntos. O maço ficou sobre o balcão e alternadamente eles puxavam cigarros e acendiam. Tentaram falar sobre banalidades, mas o corte no rosto da ruiva realmente perturbava o repórter.

“Posso perguntar o que houve, Tábata?” Ela fugiu com os olhos e voltou a esconder o corte sob os cabelos encaracolados. “Não foi nada, eu...”, ela olhava para todos os lados, como se tentasse identificar quem ainda estava no bar àquela hora. Como se tentasse tomar fôlego para criar coragem, Tábata segurou forte as mãos de Mário. Mas quando parecia que ia começar a falar, um homem surgiu à porta.

Como já havia amanhecido, tudo que o repórter viu do sujeito foi a silhueta. O homem parecia ter cerca de dois metros, não tinha cabelo e o corpo era muito quadrado. Um leve tapa daquela sombra humana já seria capaz de abrir um corte em Tábata.

Nervosa, a garota acabou derrubando a bebida que estava em suas mãos. Foi apenas um segundo, mas tempo suficiente para que o sujeito quadrado sumisse da porta. Enquanto Mário buscava uma toalha para secar Tábata, ela correu para fora do bar, com Mário logo atrás dela.

Seguiram pela Rua do Meio em direção à Nossa Senhora de Copacabana. Enquanto corriam, os letreiros iam apagando e as portas dos estabelecimentos se fechavam. As folhas das amendoeiras, que antes eram bem verdes, caíam amareladas. Quando o repórter chegou na esquina, não conseguia dizer para qual direção Tábata havia ido e não via a jovem em lugar nenhum.

Parado na via principal do bairro, ele buscava nos bolsos seu maço de Yellows, mas logo lembrou que os cigarros haviam ficado sobre o balcão do bar. Foi então que virou-se para a Rua do Meio e ela já não estava mais lá. Via apenas a agência dos Correios que sempre estivera ali.

Mário não sabia exatamente o que se passara nas últimas horas, mas precisava descobrir com urgência quem era Tábata. E o que havia acontecido com ela. E, principalmente, como voltar para a Rua do Meio.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Renée Tulip e a noite de autógrafos



Enquanto aguardava na fila, Ricardo se lembrava do primeiro livro que havia lido de Manuel Holanda. Fora o divertido “Renée Tulip e os vasos chineses”, em uma edição de bolso já surrada pelo tempo. Na época, Ricardo não devia ter mais do que treze anos, mas se apaixonou pelas aventuras da detetive Tulip.

Depois disso, ele se tornou leitor voraz das obras de Manuel Holanda. Com avidez, acompanhou todos os casos de Renée Tulip, quer quando ela, em sua primeira aventura, desvendou o assassinato de seu pai, quer quando, em seu caso mais importante, ela foi convocada pelo secretário-geral da ONU para descobrir o paradeiro de um ex-ditador africano.

O problema é que desde a última aventura de sua detetive favorita houve um hiato de mais de dez anos. Nesse período, Manuel Holanda se converteu a uma seita apocalíptica e deixou a literatura de lado. Quando o fim do mundo, tão anunciado pelo reverendo que guiava sua crença, não se concretizou, o escritor reviu sua fé e deu uma banana para a seita. Se internou em um sítio da família nos pampas gaúchos e bateu à máquina as quatrocentas e vinte e sete páginas da nova aventura de Tulip.

O mercado editorial aguardou o resultado com temor. Ninguém sabia bem o que esperar da nova obra após o período de conversão, mas ao mesmo tempo as prateleiras necessitavam de um trabalho inédito de Holanda, um dos escritores mais traduzidos da história da língua portuguesa. Até que as vendas começassem, naquela quinta-feira em que Ricardo aguardava na fila, o grande público nada sabia do conteúdo do livro.

A aventura chamava-se “Renée Tulip e o pacto demoníaco”. A detetive descobre que seu nêmesis, Clark Karamasov, o assassino de seu pai, se juntou a um grupo de terroristas para destruir a humanidade. Renée se vê então obrigada a ir até o inferno e fazer um pacto com o demônio para evitar as mortes. No fim, o demônio ressurge para cobrar a alma da detetive, que é salva pelo sacrifício de John Bacon, seu ex-marido, de quem ela não sabia o paradeiro há quase uma década.

Enquanto aguardava na fila, muito longa dado o intervalo desde a última publicação e o contingente crescente de fãs no período, Ricardo teve tempo para ler três dos doze capítulos. Já estava até pensando em discutir um pouco da obra quando chegasse sua vez de pedir um autógrafo com dedicatória a Manuel Holanda.

Cansado, caminhando passo a passo na imensa fila que saía da Biblioteca Nacional e seguia pela Rio Branco, dobrava na Araújo Porto Alegre e novamente na Rua México, o grande fã da detetive Tulip se assustou quando uma gota caiu em uma das páginas do livro. E depois mais uma gota. e outra. até que se fez a chuva. De dentro da Biblioteca, um funcionário saiu com alguns pedaços de papel, senhas, que distribuiu para os primeiros da fila, garantindo sua entrada na noite de autógrafos. Ricardo não conseguiu pegar.

No metrô, frustrado, ele evitava mexer no livro úmido com medo de estragar as páginas. Foi para Ipanema e de lá para o Leblon, onde entrou em uma livraria que nunca fechava. Sentou-se no café, ao fundo, e lanchou. E continuou lendo a história do pacto demoníaco de Renée.

Lá pelas tantas, no começo da madrugada, um sujeito gordo, cabelos brancos e barba grossa, entrou na livraria. Tirou o chapéu e a capa de chuva e cumprimentou pelo nome os funcionários do estabelecimento. Era Manuel Holanda. O escritor. O verdadeiro pai de Renée. Vizinho da livraria e vizinho de Ricardo, ainda que ele nunca tivesse sabido disso.

Ricardo pagou a conta, colocou o livro debaixo do braço, e cautelosamente seguiu Manuel pela livraria. Queria saber o que o escritor lia, quais eram suas influências. Será que compraria algo de Arthur Conan Doyle? O fã suava com a proximidade do artista.

Manuel Holanda andou pelos corredores por quase meia hora. Nesse tempo, tirou das prateleiras um guia de viagem da Itália, um dicionário italiano-português, um livro sobre as obras de arte do Vaticano e uma caderneta pautada. Talvez estivesse planejando uma viagem a Roma. Ou, o mais provável, estaria pensando em enviar Renée Tulip para a Itália.

Após checar se ainda chovia, o autor pagou pelos produtos, colocou seu chapéu, agarrou a capa de chuva e partiu, com Ricardo sempre atrás dele. Agora, estava apenas curioso para saber onde Manuel morava, mas ainda pretendia pedir uma dedicatória em seu livro. Talvez algo como “Para Ricardo, o maior parceiro de Renée em todos estes anos, que esta aventura lhe incentive a recriar seu próprio mundo” ou “Para o amigo Ricardo, leitor voraz de minha obra, meus sinceros agradecimentos”.

Em uma esquina escura, Manuel Holanda apenas parou. Não havia carros passando, mas ele também não atravessava a rua. O escritor segurou sua sacola com força, ajeitou o chapéu na cabeça, enegrecendo os olhos, e virou-se para trás. “Por quanto tempo vai me seguir, garoto?”, a voz grave de Manuel ecoou pela rua vazia.

Sem graça e surpreso, Ricardo pediu desculpa. Se identificou como fã e começou a citar seus livros favoritos de Renée Tulip. “Eu sei o nome dos meus livros”, interrompeu o autor. “Me diga o que você quer ou pare de me seguir.”

A voz falhou, mas Ricardo puxou do sovaco o livro, já com a sobrecapa descascando pelo banho de algumas horas antes. “A noite de autógrafos já terminou, garoto”, esbravejou. “Por favor, senhor. Eu fiquei horas na fila da Biblioteca Nacional. Peguei chuva e quase estraguei o livro. A sua obra é muito importante para mim”, disse Ricardo.

Impaciente, Manuel pegou o livro, rabiscou algumas palavras na página três e jogou o exemplar de volta para Ricardo. Com um largo sorriso,o fã correu para ver o que estava escrito, mas se decepcionou com a dedicatória. “Odeio dar autógrafos?”, repetiu confuso enquanto lia. “Isso mesmo, garoto”, gritou um pouco de longe o escritor, “e pare de me seguir”.

As pernas pesavam, era difícil andar naquele momento. Arrasado, Ricardo nem sabia se queria continuar a ler as aventuras da detetive. Em casa, sentou-se com a roupa molhada na cama e automaticamente ligou a televisão. Uma matéria falava sobre o lançamento de “Renée Tulip e o pacto demoníaco”. Faltavam forças até para desligar o aparelho, então Ricardo assistiu.

Na matéria, muitos fãs comentavam o quanto adoravam Manuel Holanda e o quanto o escritor havia sido amável nos poucos segundo em que estiveram próximos. E três dos fãs mostraram juntos a dedicatória do autor: “Com carinho, Manuel Holanda”. Tão simples quanto simplório.

Ricardo deitou-se na cama com as pernas para fora. Num muxoxo, puxou o livro e começou a folheá-lo. “Pelo menos minha dedicatória foi original”, pensou.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Homem-Maravilha



Era difícil conciliar os dois empregos. Há vinte anos, quando tudo começou, parecia que seria tranquilo, mas tudo foi piorando com o tempo. A vida de José Maurício, mais conhecido como Homem-Maravilha, ficava mais complicada a cada dia e ele sabia de quem era a culpa.

Morador de uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, José Maurício sempre foi respeitado por onde passava. Seu pai, durante muitos anos, fora o único médico de toda a região. Quer no colégio, na igreja ou na pracinha, todos tratavam o rapaz da melhor forma possível, pois eram extremamente gratos ao trabalho do doutor Carlos Alberto, seu pai.

Desde a mais tenra idade, José Maurício sempre quis ser médico, seguindo os caminhos do pai. O que ele nunca soube era se aquele desejo era natural, surgido da admiração que sentia por Carlos Alberto, ou se foi uma pequena lavagem cerebral feita dentro da própria casa.

Tudo parecia se encaminhar para o óbvio, até que o Grande Circo Fantástico das Maravilhas chegou à cidade. Naquela época, aos 15 anos, José Maurício já não tinha mais idade para se empolgar com a chegada do circo, mas pela profunda falta do que fazer acabou indo ao espetáculo da primeira noite.

Durante uma hora e vinte minutos ele assistiu a apresentação. Deu algumas risadas com o palhaço, se impressionou um pouco com os malabaristas, arregalou os olhos com o mágico e sua assistente e deu um leve bocejo durante a apresentação dos tigres amestrados. Mas foi com os saltos dos trapezistas que sua vida mudou.

Jana, a Dama dos Ares, e Ruy, o Príncipe do Trapézio, faziam o último show da noite no Grande Circo Fantástico das Maravilhas. Eles balançavam de um lado para o outro e se jogavam para a morte certa, apenas para logo em seguida serem salvos pela mão do companheiro. Faziam piruetas que encantavam a todos os presentes. E o coração de José Maurício parava e voltava a bater a cada novo movimento.

Na hora de voltar para casa, dispensou a companhia dos amigos. Ficou vagando em torno do circo até que a última pessoa fosse embora. Com as luzes já apagadas, ele adentrou à lona maior, caminhou no picadeiro e ficou sentado na arquibancada admirando os trapézios que pendulavam sozinhos.

Em casa, encarou o pai e disse que não queria mais ser médico. Aquela não era sua vocação. Preferia ser artista, queria se juntar ao circo. Levou uma surra de cinto de couro que deixou marcas por duas semanas em suas costas. Quando as marcas sumiram, ele já não estava mais na cidade. Foi até um município vizinho onde agora o circo se apresentava.

Três anos mais tarde, durante uma curta estadia em Belo Horizonte, José Maurício, o Homem-Maravilha, ouvia o público gritar seu nome enquanto saltava de um lado para o outro sobre os espectadores. Via os rostos passando em alta velocidade à sua frente, mas conseguia identificar os sorrisos e as unhas sendo roídas. Estava realizado.

Naquela noite, contudo, seu destino daria uma nova guinada. Ao entrar em seu trailer, encontrou o pai o esperando. O doutor Carlos Alberto parecia pelo menos dez anos mais velho, com os bigodes muito brancos e os cabelos despenteados. Com a força que ainda tinha, carregou o rapaz de volta pro interior, de volta no tempo para quando não tinha a liberdade dos trapézios.

Na casa onde cresceu, José Maurício foi infeliz. Queria voltar para o circo, mas o pai fazia questão que ele terminasse os estudos e fosse para a faculdade se tornar também um doutor. As palavras do pai entravam por um ouvido e saíam pelo outro, até que uma frase o fez refletir. “Meu filho”, disse Carlos Alberto, “essa cidade precisa de você. Eu estou ficando velho e em breve eles não terão mais quem possa tomar conta da saúde de tantas crianças e tantos idosos. Siga meus passos e proteja essa cidade que sempre te amou.”

José Maurício deixou o Homem-Maravilha de lado por algum tempo e foi para São Paulo estudar. Voltou para Minas alguns anos depois, já vestido de jaleco branco. Mas à noite, quando o céu escurecia, o jovem médico ficava na janela, lembrando como era voar.

Um dia, já casado e com filhos, uma fila enorme de pacientes para atender, o médico foi obrigado a abandonar o hospital. Seu pai, muito debilitado, havia morrido em casa. Ele enterrou o velho, arrumou as malas e foi atrás do circo outra vez. Mas, nesse momento, a vida de trapezista já não era tudo. Foi então que optou pela jornada dupla.

Todas as manhãs, José Maurício se despedia da mulher, deixava os filhos no colégio, trabalhava até o meio da tarde, quando então pegava seu carro, dirigia até uma das cidades vizinhas e se apresentava com o Grande Circo Fantástico das Maravilhas. Tinha o pé no chão durante o dia e voava à noite.

Os filhos achavam graça dos dois empregos do pai, mas o admiravam. No começo, parecia que tudo seria fácil, mas as coisas se complicaram. Nem médico nem artista circense podem se dar ao luxo de descansar nos finais de semana e enquanto um trabalho exigia estudo constante o outro demandava exercícios físicos. Os anos se passavam e José Maurício só via sua rotina se endurecer. Era preciso parar.

No dia de sua aposentadoria do picadeiro, a apresentação foi em sua cidade natal. Todo o povo estava lá para ver o último voo do filho do doutor Carlos Alberto. E o Homem-Maravilha estava especialmente maravilhoso naquela noite. Saltou mais alto do que nunca, brincou com os trapézios no ar, sentiu o vento roçando em seu rosto e deu um salto mortal que deixou a todos sem fôlego.

No último momento da apresentação, a emoção falou mais forte e a técnica acabou ficando em segundo plano. Num giro, a mão de José Maurício escorregou e ele caiu. Como sempre se apresentou sem as redes, acabou se chocando contra o chão, Um barulho seco foi ouvido por todos quando a cabeça do trapezista quicou no chão. Sua mulher gritava e seus filhos não sabiam o que fazer. Ainda tentaram levá-lo para o hospital, mas não havia médico naquela noite. O único da cidade fazia sua despedida do Grande Circo Fantástico das Maravilhas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Conto de fadas


Já passava de uma da madrugada quando Otávio colocou a última camisa em sua mala. Estava tudo lá, o que ele precisava. Gravatas, calças, paletós, alguns sapatos, cuecas e meias. Com a bagagem em punho, destrancou a porta e partiu. Ele já planejava uma mudança há algum tempo, mas não imaginava que seria assim.

Otávio namorava Leila desde tempos ancestrais. Se conheceram no curso de inglês na adolescência, mas só há alguns meses ele teve coragem de pedi-la em casamento. Joelho no chão, aliança no dedo, suspiros dos que observavam a cena. Ela aceitou. Começaram a pagar o buffet, a casa de festas, os docinhos e tudo mais o que tornaria a noite inesquecível.

Quando o convite da boda de Otávio e Leila chegou à casa de Amanda, com letras douradas e papel texturizado, a parceira de tênis da noiva morreu de ciúmes. Não porque os compromissos e obrigações de Leila aumentariam e com certeza minguaria seu tempo disponível para sacar e rebater as pequenas bolas de pelos amarelos, mas porque o melhor momento da partida era sempre o último minuto, quando Otávio chegava ao canto da quadra para avisar à amada que estava na hora de voltar para casa. Amanda sempre teve uma paixão secreta pelo engravatado, embora nunca tivesse coragem de se revelar.

Com a iminência da cerimônia, todas as barreiras morais e sociais que impediam Amanda de se declarar a Otávio caíram. Ela abusou da maquiagem, do perfume, embrulhou-se em seu melhor vestido e foi à casa de Otávio, já vendida para um casal de idosos. À porta, com sorriso trêmulo, ela disse o que sentia e, impaciente com o impávido Otávio, roubou-lhe um beijo.

Otávio já não sabia mais o que fazer. Ficar com a noiva e viver com o fantasma da amiga de Leila lhe assombrando ou entregar-se à aventura e sofrer por ter abandonado a mulher de sua vida. Impossibilitado de escolher e com as folhas do calendário caindo como o outono em direção ao dia do casamento, Otávio arrumou suas malas e fugiu.

Ironicamente, Leila foi chorar no ombro da parceira. Contou o quanto estava triste pelo abandono e o quanto amava o homem que despedaçou seu coração. A empatia de Amanda foi tão grande, que a própria pivô do fim da promessa de amor eterno passou a sentir asco de Otávio e não queria mais vê-lo nem pintado de ouro.

Com a mala no banco do carona e a capota do conversível abaixada, Otávio partiu deixando dois amores, emprego e seu labrador Luigi, que ficou aos cuidados da irmã solteirona e sem filhos. Dirigiu até a fronteira do município, depois do estado e mais os limites do país. Ainda passou por outro país e mais outro até encontrar uma pequena vila.

Em seu novo lar, mudou seu nome para Checho e abriu um bar muito mal frequentado. Quando o último centavo de suas economias acabou, arrependeu-se da fuga e caiu em depressão. Tentou duas vezes voltar para casa, para o braço de uma das mulheres que o amaram ou, pelo menos, para seu labrador Luigi, que ainda arranhava a porta, esperando o dia em que Otávio finalmente regressaria. Pediu carona por estradas empoeiradas, foi assaltado e acabou morrendo, embriagado por álcool de cozinha.

Leila e Amanda viveram felizes para sempre. Corre um boato de que as duas tentam adotar uma menina asiática, mas os relatos não condizem com a verdade. As duas se bastam e hoje são parceiras em muito mais do que nos jogos de tênis de quarta-feira à noite.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Destino

“Nasceu Bianca Duarte, que será grande atriz da televisão e do cinema brasileiro. Seus papéis de destaque serão na novela O Caminho da Felicidade e no filme Nosso Amor. Ela tentará também carreira como cantora, mas seus discos não serão bem recebidos pela crítica. Ela se casará com Rodolfo Mello, com quem fará par romântico na novela A Mulher dos Meus Sonhos, que a lançará para o estrelato. Juntos, terão duas filhas, Rosa e Patrícia, e ambas seguirão a carreira dos pais. O casamento de Bianca e Rodolfo será marcado por brigas, motivadas pela dependência dele em álcool. A futura atriz morrerá aos 87 anos, de falência múltipla nos órgãos. Ela deixará grande fortuna, que será utilizada na criação da Fundação Bianca, que dará oportunidade de estudar teatro a diversas crianças, muitas das quais serão reconhecidas como sucessoras de Bianca Duarte.”

Azevedo assinou a coluna de nascimentos, enviou para seu editor, puxou o paletó da cadeira e se despediu do jornal. Nada no mundo o frustrava tanto quanto seu emprego. A coluna de nascimentos era importante e atraía muitos anunciantes. As famílias dos recém-nascidos enviavam diversos presentes a Azevedo, na esperança de que ele contasse um futuro melhor para seus filhos. Na verdade, independia dele o conteúdo da coluna. Azevedo só escrevia a verdade.

A sociedade em que o jornalista vivia, diferente desta nossa, era totalmente baseada no destino. E eles levavam o destino muito a sério. Havia diversos especialistas em ler o futuro e, não importa o que acontecesse, eles sempre acertavam. Apesar da fama que a coluna lhe rendia, Azevedo vivia frustrado, considerando-se um burocrata do destino.

No dia em que o próprio Azevedo nasceu, seu parto rendeu uma notinha. “Nasceu na tarde de ontem Emanuel Azevedo, que em 25 anos se tornará o autor desta coluna. Azevedo, como será chamado, trabalhará em diversos jornais em sua carreira, mas será sempre conhecido como o ‘Homem do Destino’, graças a seus relatos sobre os nascimentos. Ele se casará com Fátima Lopes, mas não terá filhos por ser estéril, o que causará inúmeros problemas conjugais. Emanuel morrerá aos 62 anos, em um acidente de carro. Após sua morte, uma rua será batizada em sua homenagem.”

Seu destino o incomodava. Quem o lesse, perceberia toda uma vida de não realizações, baseada exclusivamente no trabalho que ele tanto odiava. Mas não era isso o que o aborrecia. Caso sua nota de nascimento dissesse que ele se tornaria extremamente rico e se elegeria presidente, Azevedo ficaria igualmente inconformado.

O que mais chateava o jornalista era a total impossibilidade de tomar qualquer decisão. Porque independentemente do que ele fizesse, tudo acabaria como os estudiosos escreveram no dia em que ele nasceu. Fátima, a esposa, gostava do sistema. Mesmo sabendo que nunca teriam filhos, lhe restava a alegria de constatar como o namoro dos dois tinha acontecido do jeito que estava previsto.

Naquela noite, quando voltou para casa, Azevedo estava claramente abatido. Fátima logo percebeu que havia algo errado. Ela tanto insistiu, que o marido contou o que o afligia. “Sabe essa droga de destino? Eu odeio o destino!”

Fátima achou graça na reclamação do marido. Como alguém podia reclamar do destino, se este já estava escrito e não havia como fugir? Ela deu uma gargalhada e saiu da sala. Azevedo, mais irritado do que nunca, decidiu: “Vou escrever meu próprio destino!”

Emanuel correu na gaveta da sala e pegou sua certidão de nascimento, que narrava com riqueza de detalhes os principais episódios de sua vida. Lá, dois lhe chamaram em especial a atenção. O primeiro, uma grande festa de aniversário para comemorar seus trinta anos, data que se aproximava em poucos dias. O outro, um livro que escreveria. Na opinião dele, estas eram coisas fáceis de se evitar e provar que o destino não existia.

No dia de seu aniversário de trinta nos, que mais parecia a celebração de que só faltavam mais trinta e dois para que todo o destino se cumprisse, Azevedo fez de tudo para fugir. Havia uma festa marcada num restaurante próximo ao jornal e todos os seus amigos, parentes e colegas já tinham garantido presença. A primeira idéia que teve foi ligar para o estabelecimento, acusando uma ameaça de bomba. O dono do lugar pediu que ele esperasse um pouquinho. Quando voltou, riu da brincadeira. “Isto é um trote, meu amigo. Só pode ser. Aqui no registro do meu imóvel não fala nada de bomba. Vou ter um incidente com ratos até o final do mês e um bujão vai explodir a minha cozinha em dois anos, mas bomba não tem não”, disse o homem. Impaciente, Azevedo desligou.

Sem poder cancelar a festa, só lhe sobrou fugir dela. Saiu da redação meia hora antes do horário, chamou um táxi e correu para casa. Entrou de fininho, pé ante pé, e quando chegou na sala, um grito de “surpresa” quase o derrubou. Metade de todo mundo que ele conhecia estava parado em sua sala de jantar, com bolas, bolo e salgadinhos.

Durante mais de um ano, o pensamento de Azevedo permaneceu focado no destino. Destino este que garantia que ele escreveria um livro. Essa, só dependia dele. Se Emanuel não escrevesse nada, o destino estaria errado e ele ganharia. A cada dia que se aproximava da data de lançamento da obra, mais nervoso ele ficava. Até porque diversas vezes Azevedo se descobriu escrevendo algumas linhas no intervalo do trabalho ou durante a noite.

Quando o fatídico dia chegou, o jornalista era só alegria. Seria impossível concluir e publicar uma obra em menos de vinte e quatro horas. Mas quando chegou à sua mesa e encontrou uma caixa, seu coração quase parou. No interior, encadernados com suas colunas trazia sua assinatura imensa na capa. “Gostou?”, perguntou o editor. “É um apanhado com as pessoas que serão mais famosas que você já escreveu. Vai vender que nem água. Um milhão, oitocentos e quarenta e dois, duzentos e três exemplares, para ser mais exato.”

Furioso, Azevedo voltou correndo para casa. Aproveitou que sua mulher estava fora para colocar a última etapa de seu plano em ação. Se o destino dizia que ele morreria aos sessenta e dois, um suicídio aos trinta e um seria o golpe perfeito contra o sistema. Puxou uma cadeira, amarrou uma corda no lustre e fez um laço em volta do pescoço. Com a frieza de quem estava à beira do desespero, o jornalista chutou a cadeira em que estava trepado e contente deixou o corpo pender na forca.

Enquanto gozava sorridente de seus últimos segundos e sentia com alegria o pulmão reclamar e os olhos forçarem-se para fora das órbitas, Azevedo ouviu o telefone tocar pela última vez. Após a terceira campainha, a secretária eletrônica atendeu. “Emanuel? Sou eu, Fátima. Só para te avisar que ligaram hoje do departamento de registro. Parece que houve um erro no dia em que você nasceu. A sua certidão diz que você vai morrer aos sessenta e dois, em um acidente, mas parece que você morre hoje, enforcado. To ligando só para dizer que te amo. Espero que eu ainda te pegue vivo quando chegar do trabalho. Beijo.”

Azevedo ouviu o recado em desespero. Sacudiu-se todo na tentativa de escapar da morte. Em vão. No dia seguinte, seu suicídio estava no obituário do jornal. Ninguém leu.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A cidade em que morri


O calor e o clima seco só faziam aumentar a angústia de Maria Lúcia. Sentada naquela praça empoeirada, ela se arrependia de ter saído de casa. Já estava esperando há mais de uma hora. Esperaria quantas horas fosse preciso. Não poderia continuar naquela cidade horrorosa em hipótese alguma.

Pegara um avião alguns dias antes. Saiu do Rio de Janeiro em uma ponte aérea para São Paulo. De lá embarcou em um aviãozinho de passageiros da TAM que não podia ver uma pista no meio do mato que já ia pousando. Toda vez que Lúcia achava que estava ganhando altitude, o maldito aeroplano já se aproximava de outra fazenda para pegar ou deixar passageiros.

O destino era Pontaporã. Não era para ser. No princípio daquele mesmo ano, 1977, Lúcia e o pai combinaram de visitar Recife. Senhor Luiz Gonzaga, um pernambucano alto, de pele clara, descendente de holandeses, queira ver a cidade natal mais uma vez. Lúcia queira apenas acompanhar o pai numa viagem. Como o destino prega peças, Luiz Gonzaga faleceu, em fevereiro, antes da viagem. Decidida a passear, mesmo sem companhia, Maria Lúcia, que na época tinha 21 anos, mudou o destino para visitar uma amiga.

Stela morara no Rio de Janeiro e tinha trabalhado com Lúcia numa agência do Banco Nacional. Quando o marido dela se transferiu para o Mato Grosso a pedido do Banco do Brasil, Stela o acompanhou. Lúcia estava disposta a fazer uma surpresa para a amiga. Não avisou da viagem a ninguém, exceto aos pais de Stela que pediram que uma boa quantidade de camarões fosse lavada à filha. Dito e feito, Lúcia e os camarões embarcaram no trem parador rumo à fronteira do Brasil com o Paraguai.

A jovem estava com pouco dinheiro e uma incrível falta de sorte. Um inesperado excesso de bagagem levou embora uma porcentagem de suas cifras, mas ela não estava preocupada com isso. Queria era se divertir. No avião, conheceu o senhor Gilson, que também iria para Pontaporã. O velho homem, um pouco gordo e de barbas bem desenhadas, logo percebeu que ela não era dali e lhe ofereceu uma carona. Chegaram ao endereço de Stela no princípio da tarde. Maria Lúcia agradeceu, catou as malas e pôs-se à porta da casa grande. Bateu palmas (não havia campainhas) e viu uma figura desconhecida atender:
- Pois não?
- Olá! É aqui que mora a Stela e o Paulo?
- È sim, minha filha. É na casa dos fundos. Me diga seu nome que eu vou chamá-los.
- Meu nome é Lúcia, mas olhe só... Não diga que eu estou aqui.
A mulher a chamou para entrar. Lá dentro, pôde explicar-se com mais calma:
- Nós trabalhávamos juntas. Somos muito amigas. Eu sou até madrinha do filho dela, o Paulinho. Vim visitá-la, mas não avisei nada.
- Você deve ser louca... Vir para este fim de mundo sem avisar...
- Uma aventura de vez em quando não faz mal. Se a senhora pudesse chamá-la sem avisar que eu estou aqui seria muito bom.
A dona da casa enfiou a cabeça para fora da janela e começou a gritar:
- Oh, Stela! Venha cá, minha filha! Acode Stela! Acode!

Stela partiu numa corrida de sua casa à da senhoria, equilibrando o bebê no colo, com o marido logo atrás dela. Que desgraça estaria acontecendo para tamanho escândalo? Os três invadiram a sala prontos para salvar a mulher dos escombros de um desabamento ou das chamas rebeldes de um incêndio, mas só encontraram uma senhora quieta e uma amiga de longa data. “Lúcia, Lúcia!”, e a festa não tinha fim. Abraçaram, beijaram, agradeceram os camarões, repreenderam a loucura e o sigilo. Por fim, tomaram a amiga pela mão e carregaram-na para sua casa. Deram comida, bebida, levaram para conhecer a cidade. Apesar de toda a atmosfera pacata que cobria a cidade, o chão de barro vermelho que deixava roupas e cabelos parecendo urucum a incomodou nos primeiros dias. Os tiroteios entre policiais e contrabandistas tiraram o sono da turista. Sim, pasmo leitor, naquela época ainda não havia tiroteios no Rio de Janeiro.

Para compensar a casa onde se instalou e todas as despesas que dava, Lúcia decidiu-se por pagar as compras de supermercado. Atravessaram a fronteira, que era nada menos que um canteiro no meio de uma avenida e se abasteceram no mercado mais próximo de casa. Lá se foi mais dinheiro embora.

Passados cinco dias de sua chegada, Lúcia despediu-se e seguiu viagem. De Pedro Juan Caballero, na fronteira, pegou um ônibus para Assunção, capital paraguaia. O ônibus merecia um conto à parte. Velho e enferrujado, carregava todo tipo de gente: turistas, contrabandistas, caboclos e senhores ricos. Qualquer pessoa que quisesse chegar a uma cidade com vestígios de civilização precisava tomar aquela condução. No meio do caminho, uma forte chuva começou a cair. O ônibus reduziu a velocidade parou completamente ao chegar a uma ponte. Sem saber o que estava acontecendo, Lúcia acompanhou todos os passageiros para o lado de fora. Entendendo praticamente nada e preocupada com as malas, atravessou a ponte a pé. Ao chegar à outra extremidade, viu o carro seguir na direção dos passageiros. Subiu de volta, tomou seu assento e seguiu viagem. Só num país como o Paraguai as pessoas atravessam para dar passagem ao ônibus.

Empolgada com a viagem, Maria Lúcia viu seu sonho desmoronar ao chegar em Assunção. Era a cidade mais opressora em que ela já estivera. Chegou a pensar: “Se existe reencarnação, em outra vida eu morei nesta cidade, fui torturada e sofri muito. Esta é a cidade em que morri”.

Ela encaminhou-se para o hotel, reservou um quarto, arrumou suas coisas. Estava disposta a sair do quarto, mas não achava motivação. Andou de um lado para o outro até que decidiu conhecer as ruas. Dirigiu-se calmamente a uma praça e, de repente, deu de cara com coisa mais bela de toda a cidade: Aerolíneas Argentinas. Era o melhor meio para fugir daquela cidade, daquele país. Correu para a loja, mas deu de cara com a porta fechada. Era a hora de sesta. Toda a praça estava deserta. Nenhuma loja aberta, nenhuma alma viva perambulava pela rua. Uma sensação péssima começou a tomar o corpo de Lúcia, uma náusea sem clara explicação, sem origem aparente. Resistiu. Sentou-se no centro da praça e esperou uma hora, mais uma e mais outra até que a loja, enfim, reabriu. Lançou-se ao seu interior e implorou a fuga mais rápida daquele lugar demoníaco. Foi informada que a próxima viagem Assunção-Buenos Aires seria apenas no dia seguinte. Desolada e sem esperanças vagou pela cidade. Para não perder a viagem, conheceu museus e pontos históricos, sem ser jamais abandonada pelo sentimento de angústia que lhe tirava a concentração.

Voltou ao hotel, dormiu mal e correu para o aeroporto. Apesar do dinheiro extra que estava gastando, era o melhor negócio dos últimos vinte e um anos. Sentiu o maior alívio que alguém pode sentir quando chegou à Argentina. Esqueceu-se qualquer rivalidade entre o país e sua terra natal e abraçou com carinho a cidade que bem a acolhia. Na chegada ao hotel, contou cada centavo, separou o dinheiro da volta a comprou as excursões que seu bolso alcançava. Dura que nem uma porta, ela tomava o desayuno e guardava as sobras para o restante do dia. Geléias, torradas, biscoitos, manteiga: tudo o que coubesse na bolsa era petisco para mais tarde.

Na primeira excursão que fez, ouviu a palavra restaurante, e, desesperada correu ao programa. Era realmente um restaurante, provavelmente iriam jantar em algum lugar. Quando a saliva tomava a boca, lembrou-se de que não tinha mais dinheiro. Que vergonha! Teria de ficar no ônibus, enquanto todos celebravam a gula. Ou pior: sairia do ônibus como se tudo estivesse bem e sumiria até a hora da volta. Quando, triste, já se preparava para dar uma boa desculpa, ouviu um compatriota perguntar:
- O que é cena?
O guia argentino não entendeu o sentido da pergunta. Cena é cena, o que mais haveria de ser?
-Aqui diz cena.
Foi então que um espanhol com antepassados lusitanos esclareceu, com um português quase irreconhecível:
- Cena é jantar.
Lúcia consultou o programa e lá estava: cena. O jantar estava incluído no pacote. Respirou aliviada. Num pulo, saiu de seu lugar rumo ao restaurante. Era o lugar mais lindo de toda a América do Sul. Garçons desfilando, talheres pesados, lustres de cristal, espelhos imensos (que deixariam a Confeitaria Colombo com inveja), uma infinidade de copos, facas, garfos e colheres. A comida era deliciosa, com o requinte da culinária francesa e o exagero dos pratos italianos.

Maria Lúcia “a-do-rou” Buenos Aires. Conheceu tudo o que se pode conhecer. Dançou tango, conheceu La Boca, o centro da cidade, o Rio de la Plata e descobriu que quando se flerta com o guia pode-se ir a qualquer passeio. O argentino Marcelo a levava a todo canto. Tudo ia bem, até que na última noite ele resolveu dançar mais juntinho e se insinuar. Tudo acabado, então. No quarto dia, depois de uma adorável estada e um passa fora, a jovem deixou o país.

Num ônibus leito branco com um “Pluma” azul na lateral, ela foi de Buenos Aires a Porto Alegre, de onde nem saiu da rodoviária. De lá mesmo, pegou outro ônibus para Blumenau, Santa Catarina. A irmã do meio, Maria da Conceição, morava na cidade da Oktoberfest – que ainda não era a cidade de Oktoberfest, pois o festival só surgiu após as enchentes de 1983 – desde o casamento alguns anos antes e tinha duas filhas pequenas, Marta Helena e Valéria Beatriz. Ao chegar na cidade tomou um táxi e ordenou:
- Por favor, senhor, vá à Vila Formosa, próximo à Alameda – na porta da casa a irmã já esperava com o dinheiro da corrida do táxi na mão, já que Lúcia estava zerada.

Em Blumenau tudo era bom. Tinha a irmã, o cunhado, as sobrinhas, comida boa, café colonial e nenhuma preocupação. Ficou uma semana e pôde celebrar o Natal com Maria da Conceição. Ceia de Natal, mais comida. Ganhou dez quilos que levou quase um ano para perder.

Com o fim das férias, viu-se obrigada a voltar para casa. A irmã pagou-lhe o avião da volta e lhe deu um dinheirinho extra para qualquer eventualidade. Do Santos Dumont, tomou um táxi até a Tijuca. Deu um beijo na mãe Lalieta e na irmã Íris. Antes de arrumar qualquer coisa, buscou o diário na gaveta da cômoda. Em vez dos detalhes de tal aventura, escreveu apenas:
“Visitei a cidade de Assunção. Fiquei 24 horas porque não consegui sair antes”.

Em memória de Dona Lúcia (1956-2008), minha mãe, que me ensinou a chorar